Certo dia, Humberto Gessinger e Chico César compartilharam o mesmo voo. Mais do que isso: estavam sentados lado a lado, embora nunca tivessem se falado. Gessinger confidenciou em um podcast que morria de vontade de conversar com o paraibano, de quem era fã, mas não teve coragem de abordar o colega naquela viagem. Porém, quando o avião pousou, Chico César deu uma olhadinha serena para o lado e começou a cantarolar “Terra de Gigantes”, um dos grandes sucessos dos Engenheiros do Hawaii, banda que Humberto Gessinger liderou por mais de 20 anos. Foi a senha para que os dois, enfim, conversassem e até trocassem contatos.
O resultado desse encontro veio em 2025 na forma do single “Paraibah”, que tem letra de Humberto e música de Chico, registrando, pela primeira vez, as vozes do gaúcho e do paraibano juntas. “Nosso encontro, os dois cantando juntos, cada um com seu sotaque, multiplica a força da canção. Para além de versos e melodias, tem muita vida ali”, afirmou Gessinger na época do lançamento do single, em abril do ano passado. A faixa precedeu o álbum Revendo o Que Nunca Foi Visto, de Humberto Gessinger, lançado em junho do mesmo ano pela DeckDisc.
E, por falar em fã, foi Fábio Henrique, um fã paraibano dos Engenheiros do Hawaii e da obra de Humberto Gessinger em geral — incluindo aí o Pouca Vogal —, quem fez a Paraíba voltar a encontrar o ícone do BRock em disco, mas desta vez em outro ritmo: o forró!
Produzido por Fábio, o projeto independente Nordestina Highway teve as bases gravadas em João Pessoa, no estúdio Peixe Boi, de Marcelinho Macêdo, com um timaço de músicos locais, entre eles Potyzinho Lucena (cavaquinho), Helinho Medeiros (piano), Raminho da Zabumba, Júnior Blaw (contrabaixo) e Hito Pereira (bateria), entre outros.
Com sete faixas, o disco chegou às plataformas de streaming no último dia 25 de junho, trazendo releituras para celebrar os 40 anos de carreira do gaúcho de Porto Alegre. O álbum reúne vozes que extrapolam as divisas paraibanas, grandes nomes de vários recantos do Nordeste.
Da Bahia, por exemplo, coube a Del Feliz reinterpretar “Somos Quem Podemos Ser”, música dos Engenheiros do Hawaii que se tornou um clássico dos anos 1980 e 1990 após ser lançada no LP Ouça o Que Eu Digo, Não Ouça Ninguém (1988).
Já o potiguar Xand Avião deixou sua marca em “Refrão de Bolero”, outro hit dos Engenheiros, lançado no LP A Revolta dos Dândis (1987). Desse disco também saíram outras duas versões: “Terra de Gigantes”, conduzida “na base da chinela” pelo cearense Santanna, O Cantador, e a faixa-título, que coube ao piauiense — radicado em João Pessoa — Beto Brito reinterpretar com um toque zeramalheado.
As duas cantoras do repertório são paraibanas. Lucy Alves cantou e encantou ao transformar “Eu Que Não Amo Você” em um xote arretado. Lançada originalmente no LP ¡Tchau Radar! (1999), a versão acabou se tornando o primeiro single do projeto, lançado em 17 de junho.
Já Sandra Belê tem arrancado elogios da crítica com “Depois da Curva”, música que foi buscar no repertório do Pouca Vogal, projeto criado por Humberto Gessinger e seu amigo de adolescência, Duca Leindecker, em 2008.
Pernambuco é representado pelo cantor e sanfoneiro Cezzinha. Além de emprestar sua voz serena a “Um Dia de Cada Vez” — extraída do disco solo de Gessinger, Não Vejo a Hora (2019) —, o herdeiro de Dominguinhos, agora ostentando uma barba de profeta, como pode ser visto no Instagram do projeto (@nordestinahighway), toca sanfona em seis das sete faixas (ficou de fora apenas de “Somos Quem Podemos Ser”).
Nordestina Highway é um bom motivo para manter acesa a fogueira do São João. É bom tanto para dançar agarradinho quanto para ouvir deitado na rede. As canções dos Engenheiros do Hawaii fazem parte da memória afetiva de quem passou dos 35 anos de idade e ganham sabor especial de tareco, pamonha e uma xícara de café preto nas releituras oferecidas pelo projeto. Além de arranjos simples e cativantes, o disco tem uma sonoridade envolvente, cortesia da masterização precise do paulista Felipe Tichauer, atualmente radicado em Miami, que coleciona nada menos que 27 estatuetas conquistadas em diversas edições do Grammy Latino
*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 30 de junho de 2026.