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Martinho, Elvis e o cinema

por publicado: 09/02/2021 00h00 última modificação: 10/02/2021 09h25


Estava me preparando para escrever esta coluna sobre um disco, ou um filme, como de praxe, quando soube da morte do mestre Martinho Moreira Franco, no sábado passado. Jornalista querido, gostava muito desses dois assuntos e, portanto, me senti impelido a escrever sobre ele, como forma de celebrar seu legado à seara da cultura, da arte e do entretenimento. Afinal, com Martinho, aprendi que há o ouvinte mais que atento da música, e o fã de cinema que enxerga além das imagens.

Não lembro a data exata que conheci Martinho. Sei que faz muito tempo. É quase certo que eu me lancei na frente dele e me apresentei, ainda um jovem aprendiz do jornalismo, como costumava fazer com os mestres das letras que aprendi a admirar quando entrei no curso de Comunicação Social da UFPB, nos anos 1990.

Vez ou outra, nos encontrávamos e batíamos papos rápidos sobre jornalismo, cinema e música. Leitor voraz dos diários de João Pessoa, não era raro que me ligasse na redação do Jornal da Paraíba para ponderar alguma informação no caderno de cultura (que eu editei por muitos anos), ou comentar sobre um lançamento de disco que eu costumava escrever – é bem vivo na minha memória quando ele me ligou para saber onde comprar o CD If I Can Dream, álbum póstumo de Elvis Presley - de quem ele era fã - que embalava alguns sucessos do Rei com arranjos de orquestra sinfônica, pois tinha lido uma resenha que eu fiz e se interessara pelo álbum.

MMF era cinéfilo, e apaixonado por um bom faroeste. Ano passado, me ligou para sugerir uma pauta sobre cineclube para o Correio das Artes, pedido que atendi de pronto, escalando outro grande jornalista para a tarefa, o repórter Alexandre Nunes, que também perdemos recentemente. Um dos principais atores do movimento cineclubista da Paraíba, Martinho preferiu enviar um artigo a ser entrevistado. O texto está na edição de setembro de 2020 do CdA.

“Nunca houve um cineclube como o Charles Chaplin”, começava o texto de MMF, que ainda no primeiro parágrafo assinalava: “(...) nenhum exerceu papel e influência tão marcantes na formação de uma consciência crítica entre espectadores de cinema da cidade. Ser um espectador com esse tipo de consciência, aliás, ganhou roupagem de mantra depois de o cineclube do Liceu Paraibano ensinar que cinema também se aprende no colégio”.

Entre os textos que publicou no jornal A União até outubro do ano passado, escreveu reminiscências sobre a sétima arte, e também artigos e crônicas, cujo conjunto é um dos mais deliciosos e notáveis que passaram pelo jornal recentemente. Em uma de suas derradeiras produções, partiu da reabertura de salas de cinema em Campina Grande, durante a pandemia, para discorrer, com nostalgia, sobre os cinemas de antigamente.

Escrevia às quintas e domingo. Seu último texto, Mil e uma utilidades, data de 25 de outubro de 2020. Com misto de humor, nostalgia e preocupação, MMF escrevia sobre o fechamento de um jornal impresso, e terminava com uma piada: “O editor do jornal ligou para a igreja. Queria confirmar se o presidente da República iria assistir à missa do domingo. Neste caso, pedia permissão para enviar uma equipe destinada a fazer a cobertura. O padre respondeu: – O presidente não virá, mas Deus estará presente. Seria suficiente para V.S.ª enviar sua equipe?”

O veterano jornalista, cronista e radialista descobriu um tumor maligno na cabeça em novembro. Recebi a notícia com choque. Veio a falecer na manhã do dia 6 de fevereiro de uma cirurgia para desobstruir o intestino (leia mais na pág. 9). Alguns dias antes, no dia 18 de janeiro, me enviou uma mensagem extremamente afável aniversário, que cai no mesmo dia que a filha dele, Luíza Franco, também jornalista: “Duas ilustres personalidades do jornalismo: o amigo e Luiza. Parabéns pra você, pela data e pela companhia, para quem a recíproca é verdadeira”, escreveu, encerrando com a imagem de um coração, o popular “emoji”.

Martinho Moreira Franco foi um grande, não só na altura, mas também no talento, no coração e no afeto.

*Coluna publicada originalmente na edição impressa de 09 de fevereiro de 2021.

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