Mel Brooks é uma figura. Cresci vendo seus filmes. Primeiro, Banzé no Oeste (1974). Depois, A História do Mundo – Parte 1 (1981). Não vi esses filmes na estreia, claro; vi em meados dos anos 1980, quando o humor cáustico, nonsense e politicamente incorreto (ainda mais aos olhos de hoje) dessas produções reinava e influenciava o que vinha pela frente, como Apertem os Cintos, o Piloto Sumiu (1980), Loucademia de Polícia (1984) e Corra que a Polícia Vem Aí (1988).
Prestes a completar 100 anos, no próximo dia 28 de junho, e esbanjando saúde e vitalidade, Brooks (nascido Melvin James Kaminsky) reflete sobre seus sucessos — e fracassos — no ótimo documentário Mel Brooks: O Homem de 99 Anos, disponível desde janeiro na HBO Max. O documentário, de quase quatro horas de duração, dividido em duas partes, é dirigido por Judd Apatow em parceria com Michael Bonfiglio.
Apatow, diretor de sucessos como O Virgem de 40 Anos e Ligeiramente Grávidos, aparece na tela entrevistando um Mel Brooks de 99 anos de idade e se mostra um ótimo interlocutor para balancear os louros, mas também as dificuldades de uma carreira que ultrapassa 70 anos de batente, contados a partir do instante em que Brooks assumiu um emprego de roteirista do humorístico Your Show of Shows na TV americana.
Nós, brasileiros, não acompanhamos muito a carreira do humorista na TV, cujo auge ocorreu com a esquete “O Homem de 200 Anos”, que fez um sucesso tão grande que as gags e piadas do quadro acabaram sendo lançadas em LP e fizeram muito sucesso por lá (aqui no Brasil, humoristas como Chico Anysio e Costinha também costumavam lançar LPs e K7s com repertório recheado de piadas).
“O Homem de 200 Anos”, que acabou inspirando o título do documentário, selou também uma amizade longeva entre Mel Brooks e seu coapresentador (ou “escada”, no jargão da comédia), Carl Reiner, que, assim como o colega, também migraria para o cinema, dirigindo filmes marcantes como Cliente Morto Não Paga (1982), Um Espírito Baixou em Mim (1984) — ambos com Steve Martin — e Curso de Verão (1987), um clássico absoluto da Sessão da Tarde.
Mais para o fim do documentário, Jerry Seinfeld, notório fã e discípulo da dupla, leva uma equipe de gravação para registrar as noitadas de Mel Brooks e Carl Reiner, por volta de 2005, 2006. Foi por essa época que tanto Mel quanto Carl perderam as respectivas esposas e ficaram fazendo companhia um ao outro todas as noites. “Veja onde uma vida inteira de conquistas gigantes pode levar você: à sala de estar, assistindo a game shows na TV e comendo sanduíches”, brinca Seinfeld.
Mel Brooks foi casado com Anne Bancroft, estrela de cinema muito lembrada como a Senhora Robinson de A Primeira Noite de um Homem (1967). Muito apaixonados, o documentário dedica um bom tempo a desvendar a química do casal. Mais de uma vez, o ator e diretor afirmou que o segredo do casamento deles era nunca ir dormir com raiva um do outro.
Mel Brooks: O Homem de 99 Anos funciona muito bem costurando a vida pessoal do artista com a carreira de enorme sucesso — é um dos pouquíssimos “EGOT” do showbusiness, ou seja, venceu os grandes prêmios da TV, música, cinema e teatro, a saber: Emmy, Grammy, Oscar e Tony —, por meio de depoimentos dos filhos, amigos e fãs ilustres (como Adam Sandler), além de farto material de arquivo, com dezenas de entrevistas hilárias.
Mas é a carreira no cinema que Mel Brooks tem mais holofotes. O documentário revela, por exemplo, como o ator Peter Sellers salvou The Producers (1967), ou Primavera para Hitler, como ficou no Brasil, do completo fiasco ao publicar um anúncio no jornal rasgando elogios à produção (que acabou dando o Oscar de Melhor Roteiro ao diretor e roteirista).
Sucessos como o citado Banzé no Oeste e O Jovem Frankenstein, as duas grandes obras-primas dele, ambas lançadas em 1974, são esmiuçados quanto à originalidade, audácia e criatividade (Brooks conta, com muito humor, como ignorou os cortes recomendados por um executivo da Warner para Banzé).
Enquanto fazia graça com seus filmes, o inquieto Mel Brooks também resolveu bancar dramas ousados para outros diretores. Foi assim que abriu espaço a novatos como David Lynch e David Cronenberg, produzindo títulos como O Homem Elefante (1980), que catapultou a carreira do primeiro, e A Mosca (1986), mostrando que o segundo era um diretor com potencial comercial.
Irreverente, inteligente e sempre com uma boa resposta na ponta da língua, Mel Brooks é um personagem a ser estudado. Veja Mel Brooks: O Homem de 99 Anos e aprenda, com um senhor quase centenário, a arte de bem viver.
*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 17 de fevereiro de 2026.