No sábado (13), antes do decepcionante empate do Brasil com Marrocos, resolvi animar a casa colocando no toca-discos digital o CD Tabelinha, que a Universal Music lançou no embalo da já distante Copa de 2014 — e não culpem o disquinho pelo fiasco do 7 a 1 da Alemanha sobre o Brasil, hein?!
Tabelinha é uma coletânea de duetos entre vozes masculinas e femininas, em gravações selecionadas a partir do vasto acervo da Universal, que inclui, entre outros, o catálogo da Philips, por onde a nata da MPB lançou seus LPs — muitos deles históricos — entre as décadas de 1960 e 1980.
Estão lá, por exemplo, Chico Buarque e Maria Bethânia cantando “Sinal Fechado” (na gravação ao vivo de 1975); Fagner e Nara Leão juntos em “Você” (gravação de 1973); e até Nando Reis e Cássia Eller interpretando “Relicário” (fonograma de 2001).
Uma das pérolas do repertório é um take descartado das gravações do LP Elis & Tom (1974), em que Tom Jobim ensina Elis Regina a cantar “Águas de Março”. E, equivocadamente, o dueto de Gal Costa com Gonzaguinha em “O Gosto do Amor” (lançado originalmente no LP Água Viva, de 1978) está creditado a ela e ao pai dele, o inesquecível Luiz Gonzaga.
Mas o carro-chefe dessa compilação vem de outros dois craques, um deles do futebol. Corria 1969 quando João Saldanha treinava a Seleção que conquistaria o Tri no México, no ano seguinte. Pelé, que já era um grande ídolo, integrava o time, mas, em um mundo sem os “publis” milionários do Instagram e do TikTok, um jogador do porte dele aumentava a renda participando de discos e filmes - Pelé chegou a atuar ao lado de Michael Caine e Sylvester Stallone na produção norte-americana Fuga para a Vitória (1981).
Mas, em 1969, era no estúdio que Pelé jogava. Naquele ano, em parceria com Elis Regina, a dupla lançou um compacto simples pela Philips com duas músicas: “Perdão, Não Tem” e “Vexamão”, ambas compostas por Edson Arantes do Nascimento, ou seja, pelo próprio Pelé. São essas duas gravações que abrem e fecham o CD que leva o nome do compacto lançado em vinil.
Em 1989, a Som Livre chegou a lançar outro compacto com duas músicas de Pelé: “Pacto Moral” e “A Vida É Uma Só”, desta vez sem o suporte de cantores ou cantoras famosas. Esse vinil é difícil de encontrar até mesmo para ouvir no YouTube.
Por falar em plataformas de streaming, eu mesmo só encontrei Pelé no Deezer por meio de um álbum, Peléginga, lançado em CD na Europa em 2006. O disco traz 12 faixas — incluindo as músicas gravadas por Pelé com Elis — e outros dois convidados fazendo dobradinha com Dico: o rapper Rappin' Hood, na faixa de abertura (“Ginga”), e Gilberto Gil (“Quem Sou Eu”).
Esse papo de acordes e gramado, claro, me levou aos livros. Da estante, tirei A Presença do Futebol na Música Brasileira (2010), do paraibano Assis Ângelo. Foi o próprio autor quem me presenteou com a obra, quando fui visitá-lo em São Paulo, em agosto de 2015, para conhecer seu precioso acervo sobre música popular, que serviu de base para esta espécie de almanaque que mapeia as vezes em que a música encontrou o futebol.
É curioso ver, por exemplo, como a indústria musical tirava proveito do campeonato mundial de futebol — e vice-versa. A vitória da Seleção inspirou o Brasil. Na Copa do Mundo de 1970, como “Pelé É Sempre Pelé”, de Victor Dagô, e “O Homem de Ouro, Pelé”, de Geraldo Nunes e Paulo Sette. Tostão também foi homenageado com “Marcha do Tostão”, de Álvaro Mattos e Nelson Castro, além de um compacto duplo com a trilha sonora do filme Tostão, a Fera de Ouro, na voz de Milton Nascimento, disquinho que chega a valer R$ 1.500 no mercado de raridades.
“Marcha do Tostão” era o lado B do compacto da canção que marcou o mundial daquele ano, pelo menos para nós, brasileiros. “Pra Frente Brasil”, do carioca Miguel Gustavo, foi o hino que “embalou o sonho pelo tricampeonato de 90 milhões de brasileiros que viviam sob o signo bravo das botinas, balas e baionetas do general Emílio Garrastazu Médici”, conforme o texto do paraibano.
É melancólico não ter, hoje, uma música que una a torcida do país em torno do time que está em campo em busca do hexacampeonato. Soube que a Seleção teria uma “música oficial”, “Bate no Peito”, que reúne Ludmilla, João Gomes, Zeca Pagodinho, Veigh e Samuel Rosa. Eu não ouvi essa música em lugar nenhum sem que fosse necessário procurá-la.
Na sexta-feira (12), foi lançada “Eu Me Chamo Brasil”, com o ex-vocalista d'O Rappa, Marcelo Falcão, Carlinhos Brown e o DJ Bruno Martini, “um mix de pop brasileiro com pop latino em gravação embasada com percussão afro-brasileira e timbres eletrônicos”, como descreveu Mauro Ferreira no G1. Não cheguei a ouvir a música e, se você também não a ouviu, isso talvez signifique que esta Copa segue sem uma trilha sonora capaz de defini-la.
*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 16 de junho de 2026.
