Alguém já disse que os 80 são os novos 60, mas tenho me deparado com uma turma de octogenários que tem me mostrado que os 80, na verdade, são os novos 50! Paul McCartney, que no próximo dia 18 de junho completará 84 anos, acaba de lançar um disco em que guitarras altas dão o tom! Não faz muito tempo, vovôs de seus 60-e-poucosanos já achavam ensurdecedoras as guitarras macias do Pink Floyd que seus netos ouviam com o volume baixo para não incomodar a sesta da vovó; avalie a guitarra cortante de “As You Lie There”, que abre o repertório de 14 faixas de The Boys ofDungeon Lane, ou a explosão psicodélica no final de “Mountain Top”.
Contudo, The Boys ofDungeon Lane não é um disco de rock pesado. É um álbum de Paul McCartney, no qual a gente ouve rock’n’roll, baladas folk e até canções com (boas) influências de jazz (“Salesman Saint”). Ele toca praticamente todos os instrumentos e grava o tipo de música que quer, tendo à sua frente um espelho retrovisor, compartilhando lembranças da infância em Liverpool (“Home toUs”, dueto com Ringo Starr, dois anos mais velho que Paul), dos Beatles (“Down South”) e dos tempos que não voltam mais (a tocante “DaysWeLeftBehind”, cuja letra mexe no coração de muitos jovens velhinhos).
Porém, por mais que a idade não impeça Paul de escrever, compor arranjos musicais, gravar um disco e topar uma superagenda de promoção — incluindo entrevistas a canais de TV e podcasts badalados—, a temática é mesmo coisa de velho: as lembranças de um passado que o futuro ofuscou. Contudo, isso não faz de The Boys ofDungeon Lane um disco triste. Pelo contrário: é uma grande festa que encontra seu lugar na discografia de um músico cuja estética sonora ajudou a moldar boa parte da música gravada no mundo desde que os Beatles cantaram “SheLovesYou, Yeah, Yeah, Yeah...”.
Fico feliz em pertencer ao seleto grupo que vê Paul, Ringo e esses grandes ícones produzirem música sem parar há mais de 70 anos! Semana passada, o mundo — incluindo o Jornal A União — celebrou os 85 anos de Bob Dylan, que, embora seja um chato, segue fazendo shows e produzindo grandes canções. Seu último álbum de estúdio, RoughandRowdyWays, que eu adoro, ainda está na primeira infância: é de 2020.
Os Rolling Stones — Mick Jagger fará 83 anos no dia 26 de julho; Keith Richards está com 82 (chega aos 83 em dezembro); e o caçula Ron Wood completou 79 anos ontem, 1º de junho — se preparam para lançar um disco de inéditas no mês que vem, ForeignTongues. A julgar pelos singles já lançados, o trio — com a banda de apoio — destila uma energia que poucos jovens da nova geração do rock (sim, eles existem) têm.
E não é só na música que a melhor idade mostra que está na flor da idade. Recentemente, chegou ao catálogo do Prime Video a comédia nacional Velhos Bandidos, estrelada por Fernanda Montenegro, 96, e Ary Fontoura, 93. Eles contracenam com Bruna Marquezine, 30, Lázaro Ramos, 47, e Vladimir Brichta, 50, em um filme que brinca com o avançar da idade, rende algumas boas piadas e, sobretudo, mostra um casal de idosos com uma vitalidade invejosa.
O mercado audiovisual para a idade madura parece estar em plena ebulição, e não é só no Brasil. De um fôlego só, consumi os oito capítulos da série norte-americana The Boroughs, disponível na Netflix. No elenco principal estão veteranos de Hollywood: Alfred Molina, 73, de Homem-Aranha 2 e Caçadores da Arca Perdida; Geena Davis, 70, de Thelma & Louise e Os Fantasmas se Divertem; Bill Pullman, 72, de Independence Day e S.O.S. — Tem um Louco Solto no Espaço; AlfreWoodard, 73, de Jornada nas Estrelas: Primeiro Contato e 12 Anos de Escravidão; Clarke Peters, 74, de Três Anúncios para um Crime e Destacamento Blood; e o caçula Denis O'Hare, 64, de Big Little Lies e American Horror Story.
The Boroughs é um lugar criado para acolher idosos dispostos a ter sua própria casa, mas com toda a infraestrutura de médicos, exercícios e diversão por perto, e sem ninguém para incomodar. É, portanto, um asilo em forma de bairro, um negócio de família que passa de geração em geração há 70 anos. Ou quase isso.
A trama engrena quando o personagem de Molina se muda para lá e coisas muito bizarras começam a surgir. É quando esse time de atores que citei se une para investigar o aparecimento de estranhas criaturas e o desaparecimento de vizinhos queridos. Com produção dos badalados irmãos Matt Duffer e Ross Duffer, criadores do sucesso StrangerThings, The Boroughs está entre um Goonies da maturidade e um Cocoon revisitado. Um ótimo programa para todas as idades.
*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 02 de maio de 2026.
