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No Mundo de 2020

por publicado: 12/05/2020 10h02 última modificação: 12/05/2020 10h02

 

Talvez seja efeito (colateral) do coronavírus, mas meu interesse por ficção científica aumentou bastante nestes tempos de pandemia. Com calma e interesse, tenho degustado uma bela coleção que a Versátil tem colocado no mercado de DVDs há cinco anos: Clássicos Sci-Fi, que já conta com seis volumes (um sétimo está prometido para o fim deste mês).

São estojos com seis filmes, cada volume, devidamente restaurados e acompanhados por material bônus repleto de entrevistas e making of sobre muitas das obras. É um deleite para fãs e material de pesquisa para cinéfilos.

Na semana que passou, “zerei” o segundo volume da coleção, que tem como abre-alas o cult Scanners - Sua Mente Pode Destruir (1981), filme que lançou o canadense David Cronenberg ao estrelato. A caixa também traz o curioso O Homem dos Olhos de Raio-X (1963), para muitos, o melhor filme de Roger Corman, e o seminal O Monstro do Ártico (1951), longa de Christian Nyby (e Howard Hawks) que teria uma refilmagem muito famosa nos anos 1980 conduzida por John Carpenter chamada O Enigma do Outro Mundo.

Mas a grande pérola da caixa é No Mundo de 2020, de Richard Fleischer lançada em 1973. O título, obviamente, desperta mais a curiosidade hoje, em 2020, do que quando o box foi lançado, em 2005. Mas afinal, como o cinema de 1973 imaginava o ano em que vivemos hoje?

A história se passa em 2022, para falar a verdade, e o título em português não tem absolutamente nada a ver com o original em inglês (Soylent Green). O filme pouco tem dos ambientes futuristas imaginados por obras como Metrópolis (1927), 2001 - Uma Odisseia no Espaço (1968) e Blade Runner - O Caçador de Andróides (1982), que seria lançado dali a nove anos, e foca mais no abismo social desse futuro distópico, em que os recursos naturais praticamente foram extintos, um pedaço de carne vale ouro e o salário de um trabalhador mal dá para comprar uma maçã.

Nesse ambiente, o governo distribui uma espécie de biscoito verde de proteína fabricado pela empresa Soylent (o título original vem daí). O enredo engrena quando um dos donos da empresa é assassinado dentro de seu majestoso apartamento, enquanto a sua dama de companhia (chamada na história de “mobília”, por ser parte integrante do apartamento para usufruto do inquilino) foi ao mercado gastar uma fortuna para comprar ingredientes para uma sopinha.

Charlton Heston (do clássico Planeta dos Macacos) é o policial encarregado de investigar a morte do executivo. Trabalha em uma polícia subserviente ao Estado e na qual pequenos delitos são toleráveis. Então, se ao investigar a cena do crime, encontrar pelo caminho um pedaço de carne, pode levar para casa e fazer um cozido que está tudo bem. Ninguém vai dar por falta. Só não pode esquecer de levar um pedaço para o chefe de polícia.

Nesse futuro distópico e caótico, os anciões que trabalham na polícia como parte do serviço de inteligência são chamados de “livros”, personagem que cabe ao veterano Edward G. Robinson, muito famoso por atuar em filmes noir do início do século passado e que aqui cravava sua 101º produção (seria, na verdade, seu último grande filme).

Como cinema policial, o enredo é palpitante, com um desdobramento surpreendente da história. O versátil Fleischer, que ficaria conhecido por dirigir Arnold Schwarzenegger em Conan, O Destruidor nos anos 1980, já tinha feito de terror (o ótimo Terror Cego, de 1971) a filmes policiais de rua (como Os Novos Centuriões), além de épicos bíblicos, como Barrabás (1961), estrelado por Anthony Quinn, e aventuras fantásticas como 20.000 Léguas Submarinas (1954), com  Kirk Douglas, e Viagem Fantástica (1966), com Raquel Welch.

Então já era um diretor maduro e possuía um domínio de cena magnífico quando o roteiro de No Mundo de 2020 caiu no seu colo, o que rendeu passagens memoráveis, como quando um misto de caminhão com retroescavadeira sai içando pessoas para dentro da caçamba, a fim de conter um tumulto na rua.

A título de curiosidade, completam a caixa Matadouro 5 (1972), de George Roy Hill, baseado no romance homônimo de Kurt Vonnegut (reeditado ano passado pela Intrínseca) e Robinson Crusoé em Marte (1964), sobre um astronauta (e um macaco) que tenta sobreviver em Marte (similar a Matt Damon em Perdido em Marte).

*publicado originalmente na edição impressa de 12 de maio de 2020.

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