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O brilho de Paulinho da Costa

publicado: 07/04/2026 09h01, última modificação: 07/04/2026 09h01
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Costa tocou em vários sucessos nos EUA | Foto: Divulgação/Netfli

por André Cananéa*

Paulinho da Costa, carioca nascido em Irajá, bairro da zona norte do Rio de Janeiro, tem uma história rica para contar. Tocou em mais de seis mil músicas, gravou com quase mil artistas e contribuiu para 161 gravações indicadas ao Grammy (das quais 59 venceram o “Oscar” da música), assim como participou de 12 canções e trilhas sonoras vencedoras do Oscar. Fez uma carreira brilhante na música pop internacional, porém é um ilustre desconhecido por aqui.

Disposta a mostrar para o Brasil o brasileiro de prestígio que ele é, a Netflix ajudou a produzir o documentário The Groove Underthe Groove: Os Sons de Paulinho da Costa, já disponível no catálogo do serviço de streaming. Dirigido por Oscar Rodrigues Alves (codiretor de Titãs: A Vida Até Parece uma Festa) e falado, predominantemente, em inglês, o filme é um belo tributo ao percussionista brasileiro, que, em maio, quando completará 78 anos de idade, terá seu talento (e serviços prestados à música norte-americana) reconhecido com uma prestigiada estrela na Calçada da Fama, em Hollywood - será o primeiro brasileiro a ter tal honraria, afinal, a outra “brasileira” a figurar na Calçada é Carmen Miranda, que é portuguesa de nascença.

Radicado em Los Angeles desde 1973, Paulinho se tornou o percussionista mais requisitado da indústria musical dos EUA, imprimindo sua marca em sucessos de Michael Jackson, como “Thriller” e “Don't Stop 'Til YouGetEnough” - no filme, informa que gravou cerca de 40 músicas com o cantor, incluindo a fase Jackson 5 - e de Madonna, sobretudo o álbum True Blue, de hits como “La Isla Bonita” (a cantora gostou tanto dele que fez questão de abrir o videoclipe da canção com um takedo brasileiro).

Também tocou em PurpleRain, de Prince, e deixou sua marca em sucessos que eu, você e todo mundo amamos: “I Will Survive”, na voz de Gloria Gaynor; “All Night Long”, de Lionel Richie; “Fantasy”, de Earth, Wind &Fire; e o maior sucesso de Whitney Houston, “I Will Always Love You”.

O filme conta com presenças ilustres. Quincy Jones, um dos músicos a promover Paulinho dentro do showbusinessnorte-americano (ele produziu, por exemplo, os discos de Michael Jackson e a canção “We Are the World”, que conta com o brasileiro na percussão, mas ele não foi creditado), é uma espécie de guia a conduzir o espectador pelo talento e caráter de Paulinho da Costa.

Mas há muitos outros que endossam o trabalho do percussionista: LaloSchifrin (compositor do tema de Missão Impossível, que, além de Paulinho, trabalhou com outro brasileiro ilustre, Moacir Santos), HerbAlpert (do Tijuana Brass e fundador do selo A&M), o cantor George Benson e músicos do célebre grupo Earth, Wind &Fire (que também são próximos de Milton Nascimento), e por aí vai!

Will.i.am, do Black EyedPeas — grupo que chegou a lançar uma versão de muito sucesso para o clássico “Mas Que Nada”, de Jorge Ben Jor —, mostra como encaixou o sampler de “Love TilltheEndof Time”, faixa do álbum Happy People (1979), em um dos sucessos de seu grupo, “Joints&Jams”. “Nos deu passagens para viajarmos pelo mundo”, afirma o norte-americano.

Aliás, o único ponto em que Os Sons de Paulinho da Costa dá uma mancada é que ignora a produção discográfica própria do percussionista. Paulinho da Costa tem cinco álbuns, todos lançados entre 1978, quando saíram dois, Agora e Tudo Bem!,este em parceria com o guitarrista Joe Pass, e 1987, quando foi lançado Breakdown, com repertório formado por músicas dele e de Erich Bulling (parceiro de Cláudio Rabello em “Caça e Caçador”, sucesso na voz de Fábio Jr., e “Coração Aprendiz”, dele e Ronaldo Bastos, sucesso com Fafá de Belém).

Mas isso não desabona o tour pela carreira de Paulinho. O filme narra como o carioca chegou aos EUA (a partir de um convite de Sérgio Mendes para integrar o grupo Brasil '66, por meio do qual o percussionista chamou atenção), se estabeleceu com um convite do produtor Norman Granz para integrar o seleto elenco da gravadora de jazz Pablo Records e, a partir daí, tornou-se figura obrigatória nos melhores estúdios do país e da Europa.

O enredo enaltece Paulinho da Costa, ressaltando seus feitos com muita justiça. Registra uma volta do músico ao Brasil, ao bairro onde nasceu, e reencontros com Roberto Carlos e Ivete Sangalo. A câmera de Rodrigues Alves também acompanha o carioca em sua primeira viagem à Bahia, ciceroneado por Carlinhos Brown, e conclui com a homenagem que a escola de samba Portela lhe prestou, em 2016, em meio a um depoimento emocionante do personagem principal sobre sua própria vida.

The Groove Underthe Groove: Os Sons de Paulinho da Costa é didático, repleto de curiosidades sobre música e sobre o showbusinessmusical dos EUA e não deixará você desgrudar da tela até o fim, sobretudo graças ao magnético carisma de Paulinho da Costa, seu talento e seu largo sorriso contagiante.

*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 07 de abril de 2026.