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O que a “vibe Ghibli” tem a nos ensinar?

publicado: 01/04/2025 11h11, última modificação: 01/04/2025 11h11
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Descaso: IA gerando artes à la Studio Ghibli até para memes | Imagem: Reprodução/IA
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Imagem: Reprodução/Wikipedia
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por André Cananéa*

Ter nascido em 1975 me coloca em uma posição privilegiada enquanto observador das transformações tecnológicas: cresci com TV a cores, rodeado com os primeiros videogames e até conheci de perto o TK85 e o MSX Gradiente, computadores que apareceram na minha frente, nos anos 1980, antes de o mercado ser dominado por PCs e Windows. Vi o telefone virar celular, o celular virar smartphone, e o smartphone virar nossas vidas.

Também vi a internet brotar na minha frente, crescer e virar o que virou hoje. Lembro de uma matéria que li numa revista falando de um tal wi-fi e como isso iria mudar os hábitos da nossa sociedade. Da mesma forma, vi nascerem todas as redes sociais, até as que já se foram (quem se lembra do Orkut, ou do Fotolog, avô do Instagram?). E, horrorizado, tenho visto os efeitos nocivos que elas têm causado em nós, sociedade.

Sou aberto a trends, os modismos que aparecem na internet. Não tenho problemas quanto a isso, mas a mais nova, aquela que, por meio de inteligência artificial (IA), transforma nossas fotos mais afetivas em imagens que parecem ter saído de um desenho do Studio Ghibli, essa eu me recuso, em especial ao respeito que tenho pelo mestre Hayao Miyazaki.

Foi pela mente criativa de Miyazaki que vieram ao mundo alguns dos mais notáveis, sensíveis e edificantes enredos de vida em forma de desenho animado que se tem história. Meu Amigo Totoro, O Castelo Animado, Princesa Mononoke, e ainda A Viagem de Chihiro e O Menino e a Garça, ambos vencedores do Oscar, abordam uma série de aspectos da nossa existência, tanto social quanto espiritual, com histórias cativantes repletas de ética e filosofia. Tudo isso de forma a encantar tanto crianças quanto adultos.

Não é de hoje que Hayao Miyazaki critica o uso da IA como forma de arte. Com a trend, foi resgatado um vídeo de 2016 em que o próprio diretor do Ghibli descreve a arte gerada por inteligência artificial como um “insulto à própria vida”. Ele sabe o que diz, afinal, até hoje, ele e sua equipe trabalham à mão seus delicados filmes de animação. “Estou completamente enojado”, reage a um vídeo de um personagem gerado pelo comando de texto.

Aos 84 anos de idade, completados em janeiro passado, Miyazaki deve estar bestificado ao ver a criação que lapidou com tanto zelo e qualidade ser imitada por prompts de texto aplicados em qualquer contexto, desde memes famosos a fotos de família. Meu feed do Instagram está repleto dessas imagens, que, creio eu, as pessoas postam com duas finalidades básicas: a) acham “bonitinho”; b) querem estar na trend, e estar na trend significa possibilidade de viralizar, alcançar uma maior audiência e, quem sabe, arregimentar seguidores para engordar o perfil.

Em paralelo, li um texto do portal Minha Vida alertando para o fato de que, quando a gente passou a digitalizar tudo — inclusive nossa vida pessoal, nossas relações amorosas, familiares etc. —, isso fez nosso cérebro passar por uma forte reconfiguração, e o artigo sentencia: “As novas gerações são as primeiras com um QI menor que o de seus pais”.

Citando a pesquisa do psiquiatra e neurocientista John Kruse, Livia D’Ambrosio, autora do texto, revela que o processo de digitalização da nossa vida obrigou o cérebro a dar respostas mais rápidas. Por outro lado, levou-nos a ansiar por informações carregadas de emoção, mas o principal é que, de acordo com o estudo do professor, a gente tem perdido a capacidade de pensar profundamente sobre temas.

Não sei se quem posta a trend do Studio Ghibli pensa realmente no que está fazendo. É prático ter, em segundos, um retrato em que seu rosto parece com a da simpática Kiki (do filme O Serviço de Entregas da Kiki). Não foi um artista quem fez, mas um processador que utiliza uma linguagem de máquina para emular o trabalho que humanos levaram anos aprimorando.

Não julgo quem participa da “vibe Ghibli”, mas, em se tratando de IA, toda reflexão é válida: afinal, para que — e por que — queremos ser uma personagem de desenho animado japonês? Ou apenas seguimos o fluxo do que nos dita uma empresa como a Meta (detentora do Facebook, Instagram e WhatsApp)? Reflexão e água fazem um bem danado à saúde.

*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 1º de abril de 2025.