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Onildo, Teles e um hino de 70 anos de idade

publicado: 23/06/2026 08h38, última modificação: 25/06/2026 09h50
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Onildo Almeida e Kira Aderne, no São João de Caruaru | Fotos: Jorge Farias/Divulgação

por André Cananéa*

Num fôlego só, li a breve biografia da canção “A Feira de Caruaru”, que José Teles acaba de lançar pela editora Bagaço, do Recife, onde o jornalista e biógrafo paraibano mora há décadas. A música completa 70 anos neste ano e, de acordo com Teles, integra o rol de ações que ele e a cantora e produtora carioca Kira Aderne têm realizado em prol do autor da música, Onildo Almeida, que está com 98 anos e uma energia de fazer inveja a muitos garotões de 50.

Na sexta-feira passada (19), o forrozeiro Onildo e a roqueira Kira subiram ao palco do São João de Caruaru, o grande rival do nosso Maior São João do Mundo. A apresentação foi histórica: em quase 80 anos de carreira, foi o primeiro show “solo” de Onildo Almeida.

De acordo com a pesquisa de José Teles, a carreira do compositor tem diversos pontos de intersecção com a Paraíba. Antes de se tornar um enorme sucesso na voz de Luiz Gonzaga, “A Feira de Caruaru” foi lançada pelo próprio Onildo através do selo Harpa, do paraibano Genival Macedo.

Nascido em João Pessoa, quando a capital ainda se chamava Parahyba, Genival Macedo fez história na música e na indústria musical. Quando topou com Onildo nas ruas de Caruaru, em 1956, Genival já era um compositor de frevos e marchinhas muito popular e havia inventado uma maneira de divulgar suas músicas no meio da rua que entraria para a história como “o avô do trio elétrico”: o “duo elétrico”. Mas, naquele encontro, ele tinha outra função, que mudaria a vida do autor caruaruense: era dono do selo Harpa.

Onildo mostrou a Genival um acetato artesanal em que gravara “A Feira de Caruaru”. O plano do pernambucano era que Jackson do Pandeiro gravasse o baião, mas o paradeiro do cantor paraibano era desconhecido havia algum tempo. Sem ter quem a gravasse, ele mesmo providenciou o registro.

O paraibano convenceu Onildo a regravar a música, desta vez com as condições profissionais do lendário estúdio Rozenblit, no Recife. Assim, “A Feira de Caruaru” foi lançada em um compacto simples de 78 rotações pela Harpa naquele ano de 1956, tendo como lado B a faixa “Pensando em Ti”, de Alcides Gomes, que Onildo descreve no livro de Teles como “um solo de bandolim, porque não tinha outra música para botar no outro lado”.

José Teles atribui ao comentário feito por Peter Pan (conforme assinava sua coluna em diversos jornais do país o alagoano José Fernandes de Paula) sobre o compacto — que, em 15 dias, vendeu cerca de três mil cópias, performance considerável para um cantor regional iniciante — a porta de entrada de Luiz Gonzaga para o cancioneiro de Onildo Almeida.

Gravada em 1957, a versão de Luiz Gonzaga para “A Feira de Caruaru” garantiu o primeiro disco de ouro da carreira de Gonzagão ao atingir a marca de cem mil cópias vendidas em apenas dois meses. “Foi o 78 de Luiz Gonzaga que mais vendeu”, escreve Teles. “A rima em ‘u’, a melodia chiclete, a interpretação irrepreensível de seu Luiz, a divulgação competente da gravadora. Não tinha como não ser o sucesso que foi.”

Outro paraibano deu voz a outro sucesso nacional de Onildo. “Sai do Sereno” não só deu nome ao LP de Abdias e Sua Sanfona de 8 Baixos como também abre o repertório do disco lançado pelo forrozeiro através da CBS, em 1966. Creio que tenha sido ali que Gilberto Gil foi buscar a canção de Onildo Almeida para compor o repertório do célebre disco Expresso 222, de 1972.

Pelo WhatsApp, José Teles comentou comigo que boa parte do repertório de Marinês — que foi casada com Abdias e cresceu artisticamente colada a Luiz Gonzaga — foi nutrida por Onildo Almeida. Das 12 faixas do clássico LP Marinês e Sua Gente, lançado em 1960 pela toda-poderosa RCA-Victor, três são do pernambucano: “História de Lampião”, “Carestia” e “Povo Bravo” (esta em parceria com Wilson Rocha).

Em 1962, ela incluiu outras três no LP Outra Vez, Marinês: “Siriri-Sirirá”, “Meu Beija-Flor” e “Toada da Saudade”. Em 1967, gravou mais duas no LP Marinês: “Assim Nasceu o Xaxado” (parceria com Agripino Aroeira) e “Caatingueira” (dele com José Maria de Assis). A cantora pernambucana, radicada por muito tempo em Campina Grande, ainda retornou ao repertório do conterrâneo em 1981, regravando “Siriri-Sirirá” e “Meu Beija-Flor” no álbum Estaca Nova.

Comenta-se que, até agora, Onildo Almeida tenha composto cerca de 500 canções. De sua vez, José Teles, um dos mais importantes jornalistas de música do país, jájáalcança marca semelhante, só que de livros. Aqui na minha cabeceira, tenho Crônicas Pandêmicas, que ele lançou recentemente e estou quase terminando, e, na fila, o romance O Piano da Discórdia. Isso sem falar nas inúmeras biografias (Chico Science, Quinteto Violado, frevo etc.) que estão ali, na estante. Quem quiser entrar em contato com ele, pode fazê-lo pelo e-mail jozeteles@gmail.com.

*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 23 de junho de 2026.