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Quase 50 anos depois, 'O Homem de Palha' permanece soberbo

por publicado: 22/06/2021 08h00 última modificação: 22/06/2021 11h28


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idsommar - O Mal Não Espera a Noite é um filme de terror exibido nos cinemas em meados de 2019 e que, rapidamente, virou um cult movie (e, em setembro, enfim ganha edição nacional em blu-ray). Mas não existiria Midsommar se, quase 50 anos antes, o produtor independente Peter Snell não tivesse se associado ao diretor Robin Hardy e ambos tivessem convencido o ator Christopher Lee a embarcar em uma produção independente que se tornaria um marco no cinema e, de quebra, se tornaria a régua e o compasso para o subgênero batizado de “folk horror” (do qual fazem parte, além de Midsommar, A Bruxa e o sul-coreano O Lamento): O Homem de Palha (1973).

Produzido com poucos recursos em algumas locações na Escócia e desprezado em sua estreia, O Homem de Palha foi ganhando admiração com o passar dos anos e agora, em junho de 2021, ganha uma tremenda edição em blu-ray no Brasil, com toda a pompa e circunstância que o filme merece.

Lançado pela selo Obras-Primas, a caixa reúne nada menos que as três versões conhecidas do filme, uma porção de material extra (incluindo comentários em áudio na versão do diretor) e um balaio de souvenirs, como um livreto sobre a obra, poster, chaveiro e cards… edição que, sequer, existe similar no exterior.

Apontado como um filme à frente do seu tempo, O Homem de Palha segue atualíssimo, sobretudo na discussão sobre verdade à luz da religião. Na história, um policial extremamente católico e bastante rígido (Edward Woodward) é convocado para investigar o desaparecimento de uma adolescente em uma ilha remota, em que um conde (Lee) é o senhor supremo. Chega lá em um avião-anfíbio e, sem tempo a perder, começa a procurar a garota.

No desenrolar da história, tanto o policial, quanto nós, espectadores, vamos descobrindo que a ilha é habitada por moradores que têm sua própria religião, cultuando deuses pagãos, cumprindo rituais medievais e, até mesmo, se valendo de sacrifícios humanos para ter uma colheita próspera.

Esse jogo de descobertas, essa “viagem à toca do coelho”, para evocar a metáfora de Alice no País das Maravilhas, é descortinado paulatinamente até o final excepcional que, até hoje, dá o que falar em que humano e animais são queimados em uma grande fogueira (sem recursos, e sem tecnologia, a cena teve que ser feita à vera, e por pouco a equipe não come bode e porco assados no jantar).

O enredo é tão fascinante, quanto os bastidores da produção. O filme foi entregue a uma distribuidora no Reino Unido que, segundo o depoimento revisionista dos envolvidos, não soube vender a obra direito, afinal a atmosfera é de terror, mas também há nuances de melodrama com pitadas de erotismo e, se você achou pouco, a trama é pontuada por números musicais, um deles, bastante satírico, lembrando a verve do Monty Python.

Para piorar, as duas redes de cinema do país, à época, deram de ombros com o filme e, para encaixá-lo na programação, exigiram que o filme fosse cortado para caber numa metragem de 88 minutos, eliminando, assim, partes importantes da narrativa e criando buracos que só foram devidamente compreendidos mais tarde, em 2013, quando saiu a edição definitiva, com 94 minutos.

Apontado pela prestigiada revista norte-americana Cinefantastique como “o Cidadão Kane do Terror” e festejado por inúmeros diretores contemporâneos (como Eli Roth, de O Albergue), O Homem de Palha foi bastante inovador naquele início dos anos 1970, sobretudo ao retratar o mal: enquanto o cinema de horror entendia as criaturas malévolas como monstros da qualidade de vampiros, lobisomens ou pessoas reconhecidamente sinistras, aqui os “monstros” são pacatos cidadãos que oram ao sol por uma colheita farta e vivem felizes na vida rupestre que levam em uma comunidade pacata e unida, similar a ideia que, dez anos antes, Hitchcock teve ao incutir em um grupo de pássaros, terríveis monstros assassinos.

E quão assustadora não é aquela bondosa senhora que serve um chá com biscoitos em sua loja de miudezas?


*Coluna publicada originalmente na edição impressa de 22 de junho de 2021.

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