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Quem ainda compra LP e blu-ray?

por publicado: 19/05/2020 17h44 última modificação: 19/05/2020 17h44
Entre outros títulos à venda por Ed Motta, 'Coisas', do pernambucano Moacir Santos, custa 7,2 mil euros

Entre outros títulos à venda por Ed Motta, 'Coisas', do pernambucano Moacir Santos, custa 7,2 mil euros

 

Semana passada, a imprensa noticiou que Ed Motta - que além de cantor e multiinstrumentista, é famoso por ter uma cobiçada coleção de LPs raros - estaria colocando alguns títulos à venda, 419 de um total de 30 mil para ser exato, na plataforma Discog, um tremendo banco de dados sobre LPs do mundo todo e ponto de encontro virtual entre colecionadores (Olrik é o usuário do músico carioca no site).

Segundo informações divulgadas pelo UOL, se convertidos para a moeda brasileira, o pacote custaria coisa de R$ 500 mil, o preço de um bom apartamento aqui em João Pessoa. Somente o LP Coisas, do pernambucano Moacir Santos (que teve uma memorável passagem pela Paraíba, onde chegou a integrar a Orquestra Tabajara), ele pede coisa de 7,2 mil euros, uns R$ 45 mil, se convertidos hoje.

No próprio site, Ed Motta alega que se trata de uma edição originalíssima, que conseguiu das mãos do próprio Roberto Quartin, fundador da gravadora Forma que lançou, em 1965, esta que é uma das obras-primas mais cultuadas da música brasileira. "Cálice sagrado", diz o texto que Ed Motta postou, argumentando que esta edição específica é tão rara que facilmente poderia estar em um museu.

Tiragens originais são muito valorizadas por colecionadores, embora o título Coisas nao chegue a ser tão raro, afinal saiu em CD em 2004 (atualmente fora de catálogo) e teve uma reedição em vinil em 2013. Mesmo assim, no Discogs, cerca de 1.300 pessoas colocaram o disco original entre seus objetos de desejo.

A pergunta que não quer calar é: quem pagaria R$ 45 mil por um LP? No Brasil talvez seja difícil encontrar um comprador tão estribado, mas há, sim, colecionadores dispostos a pagar pouco mais de 7 mil euros pelo mimo na Europa ou no Japão, onde a mídia física ainda é bastante valorizada.

Curiosamente, eu tenho visto nesta pandemia uma valorização da mídia física, talvez não tanto dos discos (vinil e CD), mas da volta do blu-ray (ou a volta dos que não foram) e do DVD. Na internet, o nicho que outrora levava consumidores à Americanas, Saraiva e Cultura, voltou a ser valorizado, desta vez no e-commerce, a partir de pequenas lojas mantidas por colecionadores (caso da FamDVD) ou de próprias distribuidoras (Versátil, especializada em clássicos, e Imovision, em nacionais, mantém loja aquecida na rede).

Nos EUA, por exemplo, a venda de aparelhos que tocam DVD e blu-ray cresceu cerca de 27% em abril, segundo matéria da Media Play News. Aqui não há informações sobre players, nem as lojas de DVD/blu-ray divulgaram suas planilhas, mas a quantidade de lançamentos anunciados nos últimos dias é um bom termômetro - vai ver, é a limitação dos catálogos de streaming, que para a música é infinitamente mais abrangente que para filmes.

A FamDVD tem entrado em acordo com distribuidoras para lançar títulos exclusivos em alta definição. Em abril lançou o pós-terror A Bruxa, cuja tiragem minúscula em blu-ray fez o produto rapidamente sumir das prateleiras e ser vendido por até R$ 400 no Mercado Livre. A reedição sai bem mais em conta, por R$ 50.

A Versátil, que tinha puxado o freio-de-mão dos lançamentos em blu-ray há quatro anos, alegando que o alto custo e a baixa saída do produto não fechavam a conta, não só relançou um valioso box em alta-definição do cineasta italiano Dario Argento, quanto anunciou para os próximos meses edição caprichada em blu-ray de cults como Enigma do Outro Mundo (que sai numa caixa dedicada ao diretor John Carpenter) e Os Sete Samurais, de Kurosawa.

Talvez a quarentena tenha feito muitos colecionadores tirarem a poeira dos velhos players, ou o tempo extra em casa pode ter feito muitos deles, enfim, se dedicarem ao material extra dos DVDs e blu-rays, descobrindo o maravilhoso mundo dos bastidores do cinema. Pelo sim, pelo não, a (re)valorização da mídia física é uma alegria para quem a coleciona.

*publicado originalmente na edição impressa de 19 de maio de 2020.
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