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Rambo, o Afeganistão e o Talibã

por publicado: 24/08/2021 08h00 última modificação: 23/08/2021 22h39
Exibir carrossel de imagens No terceiro filme da franquia lançado no final dos anos 1980, Stallone se alia aos rebeldes Mujahedin para combater os soviéticos no Afeganistão

No terceiro filme da franquia lançado no final dos anos 1980, Stallone se alia aos rebeldes Mujahedin para combater os soviéticos no Afeganistão


Apontado pela crítica cinematográfica como o filme mais fraco da franquia, Rambo 3 voltou a ser assunto com a retomada do poder do Talibã no Afeganistão, na semana passada. Isso porque a terceira aventura do famoso personagem interpretado por Sylvester Stallone, lançada originalmente em 1988, mergulha fundo nas raízes que deram origem ao grupo extremista, que hoje toca o terror na comunidade afegã.

Com o pretexto de resgatar seu velho parceiro de guerra, o coronel Trautman (Richard Crenna), refém da Rússia no Afeganistão, Rambo empreende uma aventura repleta de tiros e explosões (é emblemática a cena em que o personagem salpica pólvora em um ferimento a bala no abdômen e taca fogo a fim de cauterizá-lo), aliando-se aos rebeldes Mujahedin em uma luta contra o poderio bélico soviético.

Vale lembrar que, de fato, a Rússia, naqueles distantes – mas não tanto – anos 1980, empreendeu um ataque militar contra o Afeganistão, disposto a estender seus domínios. Situados em uma região profundamente estratégica na Ásia Central, antes da Rússia, o Afeganistão já havia sido alvo de cobiça de Alexandre, O Grande, Genghis Khan e a Inglaterra, como nos lembra um personagem do filme.

E é neste ponto que Rambo 3 volta a ganhar notoriedade. A história nos conta que, para conter o avanço soviético, o principal inimigo da Rússia naqueles tempos de Guerra Fria, os Estados Unidos, teve que intervir, financiado armas, munição e estratégias de guerrilhas para camponeses dispostos a sacrificar a própria vida por um bem maior, que era ter o Afeganistão livre de qualquer dominação estrangeira. Esses camponeses eram os Mujahedin.

No documentário em média-metragem Afghanistan: Land in Crisis (2002), de Laura Nix, que acompanha uma recheada edição em DVD com os três primeiros filmes protagonizados por Rambo, professores, estudiosos, político e até um ativista afegão, além de produtores do filme e do próprio Stallone, discutem o enredo de Rambo 3 e seu impacto na política internacional.

“Esta foi a principal operação da era Reagan”, afirma um dos especialistas, referindo-se ao financiamento de atos de guerrilha junto ao povo afegão. Outro destrincha que, como a guerra era “fria”, esse fornecimento de armas era algo velado, então a Casa Branca fornecia armamento soviético para o combate, para não dar na cara que quem fazia frente à Rússia era a América e, sim, o próprio povo afegão.

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Somente quando a coisa apertou – afinal, os mosquetes Jezail não eram páreos para o poder de fogo do MI-17 russos – é que os EUA resolveram aumentar o poder de fogo dos Mujahedin, fornecendo mísseis capazes de derrubar helicópteros. “Foi a primeira vez que oferecemos esta tecnologia ocidental avançada para alguém fora da Nato”, afirma o autor de Afghanistan’s Endless War (inédito no Brasil), Larry P. Goodson, referindo-se à Organização do Tratado do Atlântico Norte.

Nota histórica: a ocupação russa no Afeganistão durou cerca de 10 anos, até 1989. Quando eles partiram, os Estados Unidos também largaram os Mujahedin cheio de armas e sede de poder à própria sorte, contribuindo para os conflitos internos do país e, por tabela, para o fortalecimento do terrorismo. Cinco anos depois, surgiria o Talibã, cujas filas foram engrossadas justamente por ex-combatentes dos anos 1980, ou seja, ex-Mujahedin, além de ex-comunistas e estrangeiros (como um tal de Osama Bin Laden). “O Afeganistão se tornou exportadora do terrorismo”, crava um professor no documentário de Laura Nix.

Do esporte nacional praticado no Afeganistão, o Buzkashi, à passagem de Rambo pela cidade de Peshawar, na fronteira com o Paquistão, que nos anos 1980 era o centro do movimento da resistência afegã, abrigando refugiados – e, por conseguinte, cenário de muitos assassinatos, carros-bomba, espiões e intrigas – há muito da vida real afegã no enredo.

Até o personagem de Spyros Fokas (que quando eu vi o filme pela primeira vez, achei que fosse Omar Shariff) é inspirado no real Ahmad Shah Massoud, morto em um atentado suicida promovido pela al-Qaeda e os talibãs dois dias antes dos atentados de 11 de setembro de 2001. No documentário, Stallone – que chama Massoud de “herói” – conta que muitas das falas do personagem são verdadeiras, atribuídas ao “Leão de Panjshir”.

Mas, claro, predomina no filme a ficção. Apesar dos produtores jurarem que Rambo 3 foi feito para o entretenimento, com muito tiro, pancadaria e bomba, os especialistas dizem que seu lançamento provocou abalos para além de Hollywood. É que embora houvesse a cobertura de bravos e corajosos jornalistas, dispostos a se embrenhar no meio das balas, foi o lançamento de Rambo quem deu força ao assunto. Mas já era tarde.

Quando o filme estreou em 25 de maio de 1988 nos Estados Unidos (no Brasil, chegou quase três meses depois, em 19 de agosto), a Guerra Fria já derretia com um caloroso beijo do presidente russo Gorbachev na primeira-dama americana, Nancy Reagan, selando, justamente naquele mês, os processos que levaram ao fim do conflito entre os dois países. Para Stallone, a coincidência acabou, digamos, “prejudicando” a recepção do filme.

Não saberia dizer onde encontrar Afghanistan: Land in Crisis no vasto universo da internet, mas Rambo 3, assim como os dois primeiros filmes da franquia, estão disponíveis no catálogo da Netflix Brasil. Vale a revisão (histórica, no caso), nem que seja para o puro entretenimento. Afinal, é ruim, mas é desses filmes ruins que a gente adora! Só não sai dizendo por aí que gosta…

*Coluna publicada originalmente na edição impressa de 24 de agosto de 2021.

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