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Sem perder a fé no R.E.M.

por publicado: 30/03/2021 07h00 última modificação: 29/03/2021 09h42


O ano de 1991 foi bastante especial para a música pop, sobretudo para o rock internacional. Nesse ano nasceram alguns discos fundamentais da história recente do gênero. Vamos lá:
Nevermind e Ten, respectivamente do Nirvana e Pearl Jam, ficando, ali, a bandeira do grunge; Arise, álbum que catapultou o Sepultura ao estrelato; Achtung Baby, a obra-prima fora da curva do U2, e o chamado “black álbum”, que tirou o Metallica do nicho e a fez, da banda, um sucesso comercial, entre tantos outros.

Outro disco que saiu naquele ano e que, portanto, está fazendo 30 anos, foi Out of Time, o sétimo álbum de uma banda americana chamada R.E.M. (pronuncia-se, cada letra, em inglês). O disco seria um divisor de águas na carreira do quarteto, e diz muito sobre aqueles tempos, nos quais eu, em plena adolescência, consumia bastante conteúdo sobre música (MTV, revista Bizz, publicações importadas etc.) e tinha tempo de sobra para, como se dizia na época, “ouvir o disco até furar”.

Out of Time foi um desses discos que, se não furou, é porque eu já ouvia CDs em 1991, lidos por um feixe de luz em um aparelho que parecia uma pequena espaçonave, de tanto sofisticada na época, e não a velha vitrola que emitia sons através de uma agulha, capaz, esta sim, de furar o vinil de tanto que se ouvia um LP.

Out of Time, que saiu no Brasil em abril de 1991, tinha dois públicos: os fãs do R.E.M., que apreciavam a bolacha por inteiro, e os de ‘Losing my religion’, seguramente o maior hit da banda, e uma das músicas mais tocadas naquele ano, com direito a videoclipe de cunho artístico que quebrou barreiras e fez história ao unir referências a Gabriel Garcia Marquez, Andrei Tarkovsky, Caravaggio e muita, muita arte sacra, sob a direção de um cineasta indiano, Tarsem Singh.

Pessoalmente - e para muitos da minha geração - a audição daquela balada estranha, sobre insegurança cheira a fumaça de gelo seco e evoca as sensações que as noitadas da extinta boate Palladium criavam, afinal a canção do R.E.M. tocava à exaustão em uma única noite. ‘Losing my religion’ também me lembra um amigo, advogado, querido, que em pleno São João, em Santa Luzia, sacou do bolso uma fita k7 com a faixa gravada, e só ela, nos dois lados, e colocou para tocar no sistema de som do colégio de freiras da cidade.

Quem se dispuser a mergulhar na obra-prima anacrônica que é Out of Time vai se surpreender. Na completa contramão da força crua e irada que era Nevermind, o disco do R.E.M. deixava de lado as guitarras para dar lugar a banjo, escaleta, percussão e arranjo de cordas, em repertório que incluía a beleza melancolia rural de ‘Country feedback’ e o colorido rap de ‘Radio song’, mas que poderia sair da intimista ‘Low’ para a esfuziante ‘Shinny happy people’ (outro sucesso do disco) em apenas três faixas!

A história por trás do disco - resgatada, em minúcias, pelo podcast Discoteca Básica  - merece sua atenção. Ele não foi só um marco na carreira do R.E.M., mas é um dos títulos que fez história, pois chegou às lojas subvertendo a lógica de mercado: no primeiro disco da banda por uma grande gravadora, a Warner, os integrantes tinham total liberdade criativa para fazerem o disco que quisessem, sem que os executivos dissessem um “ai”.

Entre as cláusulas do contrato, estava que o R.E.M. continuaria dando atenção às publicações e rádios independentes, mídia que tinha feito a fama do quarteto de Athens entre universitários e ouvintes atentos de música pop, uma faixa que ficava à margem do grande público, que consumia o que vinha do circuito comercial, bancado pelas gravadoras.

O R.E.M. era tão radical em sua proposta artística que, sequer, topou realizar uma turnê a bordo do fenômeno que foi o disco nas paradas de sucesso, o que garantiria uma boa bolada para os músicos e sua equipe. 

Com exceção de meia-dúzia de pequenos shows que fez nos Estados Unidos e na Inglaterra para coisa de 200 felizardos (para isso, a banda se anunciava com o pseudônimo Bingo Hand Job), o R.E.M. não promoveu o disco através de shows ao redor do mundo.

Para outros poucos felizardos, em 2019 foi lançado o registro de uma dessas apresentações sob o título de Live at the Borderline 1991, um LP duplo, hoje raro. É toda lembrança “ao vivo” que se tem daquela época.

*Coluna publicada originalmente na edição impressa de 30 de março de 2021

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