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Sivuca para ouvir, em streaming!

por publicado: 26/05/2020 08h00 última modificação: 25/05/2020 10h36

 

É meio frustrante procurar os discos de Sivuca nas plataformas digitais. Dos 38 álbuns de carreira que o músico paraibano lançou, listados no Discogs, maior banco de dados sobre registros fonográficos do mundo, menos de 1/3 por ser encontrado em serviços de streaming como Spotify ou Deezer. Basicamente, o que pode ser encontrado do Poeta do Som são os álbuns que foram digitalizados e, eventualmente, lançados em CD, dentro e fora do Brasil. É coisa de dez títulos, aproximadamente, além de meia dúzia de coletâneas.

Estão lá, por exemplo, os quatro últimos álbuns lançados por ele, todos unicamente em CD: Cada Um Belisca Um Pouco (2004), que reúne Sivuca, Dominguinhos e Oswaldinho do Acordeon disco que foi indicado ao Grammy Latino; e Sivuca Sinfônico (2004), ambos distribuídos pela Biscoito Fino. E também os dois títulos da Kuarup, o premiado Sivuca e Quinteto Uirapuru ‎(2005) e o póstumo Terra Esperança, lançado no raiar de 2007, poucos meses após a morte do músico, em 14 de dezembro de 2006.

Anterior a isso, pouca coisa, mas coisas importantes. Há o disco que ele fez com o venerado músico de jazz Toots Thielemans (Chiko’s Bar, de 1985), um dos dois álbuns que ele gravou com Putte Wickman (Putte Wickman & Sivuca, de 1982); Sanfona e Realejo (1987), com Rildo Hora, e a dobradinha com Rosinha de Valença gravada, ao vivo, no Seis e Meia de 1977.

Solo, há dois, dos quatro volumes do projeto Forró e Frevo que ele gravou para o selo Copacabana no início dos anos 1980. Estão lá o volume 1 e o 3, coincidentemente os únicos dos quatro que saíram em CD no Brasil, lançados separados ou juntos na série 2 em 1 que a extinta EMI fez circular em 2003.

Há o curioso Let’s Vamos (1987), que sequer é listado pelo Discogs na aba Sivuca. Gravado na Suécia e creditado à Sivuca e ao Guitars Unlimited, o repertório, que vai de ‘Vassourinhas’ a ‘Trem caipira’ e ‘Noites cariocas’, ‎é recheado com fantásticos duetos entre acordeom e guitarras (pilotadas pelos suecos Peter Almqvist e Ulf Wakenius).

Um achado neste mergulho no streaming é o álbum de 1959 Samba "Nouvelle Vague", lançado pelo selo francês Barclay Disques. Aqui, Sivuca lidera a “orquestra de ritmos brasileiros e Silvio Silveira” em repertório fino de bossa nova e a maior surpresa, é poder ouvir Sivuca soltar a voz em faixas como “Samba de uma nota só”, de Jobim, e “Maria Ninguém”, de Carlos Lyra. Em tempo: tanto no Spotify, quanto no Deezer, a capa que aparece não é a do LP original, mas de um CD lançado na Europa, remasterizado e com uma faixa bônus.

Não é comum ouvir Sivuca cantar. Mas dez anos depois, em 1969, ele voltou a entoar alguns hinos da música brasileira em seu único disco gravado para o prestigiado selo Reprise, aquele mesmo, criado por Frank Sinatra. O LP Sivuca ficou restrito ao mercado europeu, mas é um disco fabuloso, sofisticado, orquestral e jazzístico. Se revezando entre o violão e o acordeom, Sivuca canta “Arrastão” e “Amor verdadeiro” (de Sivuca e Luis Bandeira) e solfeja “Eu e a brisa” acompanhado de elegante arranjo de orquestra. O disco não está nos aplicativos de streaming de maneira oficial, mas pode ser conhecido através do Youtube.

Sivuca começou a gravar, segundo o Discogs, em 1956 pela extinta Copacabana Discos. Não poderia ter um título mais apropriado para o jovem de 26 anos que estreava em estúdio: Eis Sivuca!, um 10 polegadas com dez faixas que contempla, em seu repertório, de Ary Barroso a Sebastian Bach, passando por Guerra Peixe e Ernesto Nazareth, entre outros. Todos os temas tocados com um virtuosismo impressionante.

Esse é um disco que faz falta no streaming, ao menos oficialmente. Para matar a curiosidade, ele pode ser encontrado, na íntegra, no Youtube, em postagem feita por um fã, portanto, sujeita a sumir a qualquer momento se os detentores dos diretos autorais do álbum resolverem tirá-lo do ar. É o caso de vários outros álbuns do mestre paraibano que mostrou, como poucos, um ecletismo de dar inveja que conquistou não só a Paraíba, ou o Brasil, mais o mundo.

 

*publicado originalmente na edição impressa de 26 de maio de 2020.

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