Em cartaz há mais de duas semanas nos cinemas — incluindo salas em João Pessoa, Campina Grande, Patos, Guarabira e Remígio —, Devoradores de Estrelas tem feito sucesso na base do boca a boca. Ou seja, as pessoas estão indo vê-lo, gostando e recomendando aos amigos para eles irem ao cinema ver essa ficção científica simpática, divertida e tocante. E é um filme para ser visto no cinema mesmo.
Inspirado no livro homônimo de Andy Weir (mesmo autor de Perdido em Marte), o filme começa com um homem barbudo despertando em uma espaçonave no meio do espaço. Ele não sabe quem é, nem muito menos o que está fazendo ali.
Através de flashbacks, vamos descobrindo quem é aquele homem, Ryland Grace (interpretado com gana pelo ator Ryan Gosling), um professor de ciências que acaba envolvido em uma força-tarefa internacional para resolver um problemão: o Sol está sumindo, assim como outras estrelas, e isso vai provocar o resfriamento da Terra e, por conseguinte, a extinção da humanidade.
Os tais “devoradores de estrelas” são microrganismos alienígenas, que precisam ser contidos. A solução, no entanto, não está na Terra, está no espaço. E a sisuda Eva Stratt (Sandra Hüller, fantástica, como sempre), cientista à frente do Project Hail Mary (nome original do filme), não poupará esforços para mandar a única pessoa que pode salvar o planeta para resolver a questão, o professor Grace. Porém, uma vez lá em cima, ele vai conhecer um simpático extraterrestre e desenvolver uma improvável amizade.
Devoradores de Estrelas é aquele “filme conforto”: você chega ao cinema sem expectativa nenhuma e sai com uma ótima sensação de bem-estar. Isso porque ele não é nenhum “filme-cabeça”, apenas um entretenimento com muitas piadas, vários easter eggs de cinema e cultura pop (Contatos Imediatos do Terceiro Grau, Rocky, Um Lutador, Superman: O Filme etc.) e uma história de amizade muito bem azeitada. Afinal, o filme da dupla Phil Lord e Christopher Miller (do ótimo Uma Aventura Lego) não é sobre salvar o mundo, mas sobre como ter empatia, afeição e sororidade por outro ser, mesmo que esse ser seja de outro planeta — e mais pareça uma pedra!
Outro fator importante para tornar Devoradores de Estrelas uma produção agradável é sua trilha sonora, com canções de vários países, várias épocas (com predominância de faixas lançadas nos anos de 1970) e são de vários estilos. Há gravações de artistas de nada menos que sete países, com predominância, óbvia, dos EUA, mas com dois pesos pesados do Reino Unido — Beatles e Oasis — e um momento da trama para entrar para a história: quando a personagem de Sandra Hüller canta “Sign of the Times”, do norte-americano Harry Styles, em um karaokê.
A trilha também contempla Itália (muito bem representada com Ornella Vanoni entoando “E Così Per Non Morire”), Alemanha (com os roqueiros do Scorpions) e Argentina (com Mercedes Sosa em destaque cantando seu hino “Gracias a la Vida”, mas há também uma canção com o cantor Roberto Firpo). Isso sem falar nos clássicos norte-americanos Ella Fitzgerald (com Louis Armstrong), Neil Diamond, Kris Kristofferson, Dennis Wilson (o icônico baterista dos Beach Boys, falecido em 1983, aqui através da canção “Rainbows”, de seu único disco solo) e “Glory, Glory”, tremenda gravação gospel da dupla Ike & Tina Turner, que surge nos créditos finais do filme.
Para nossa grata surpresa, há um paraibano não creditado nessa trilha: Severino Dias de Oliveira, nosso Sivuca. Como? Vamos lá: em determinado momento, Grace e um segurança do projeto Hail Mary vão às compras, e essa cena é embalada pelo hit “Pata Pata”, da cantora africana Miriam Makeba. Sivuca toca violão nessa faixa, lançada no disco homônimo de 1967, do qual ele também é creditado como um dos produtores e arranjadores do álbum — é o mesmo LP em que Makeba regravou “Maria Fulô”, do filho ilustre de Itabaiana.
Sempre creditado como Severino Dias, Sivuca comparece, por exemplo, nas gravações que a cantora fez para o prestigiado selo de jazz Reprise. No Miriam Makeba – In Concert, que o selo lançou em 1967, ele é creditado como diretor musical do projeto.
Nas minhas pesquisas, não sei ao certo quanto tempo Sivuca integrou o staff de Miriam Makeba. Creio que tenha sido em torno de dez anos — no histórico Zaire 74, festival com três dias realizado na atual República Democrática do Congo, na África, com atrações do calibre de James Brown e B.B. King, Sivuca aparece com seu violão no grupo que subiu ao palco na noite de 23 de setembro de 1974 para acompanhar Makeba. A imagem está registrada no blu-ray Soul Power (2008), um documentário sobre o festival, e o paraibano chega a ser mencionado pelos diretores do filme na trilha de comentários em áudio como “um grande músico brasileiro”, o que ele é, de fato, na Terra ou em qualquer outro planeta!
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 14 de abril de 2026.