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Um livro que ‘toca’ música brega

por publicado: 07/08/2019 10h17 última modificação: 07/08/2019 10h17


Traições, desilusões e amores não correspondidos. O universo da chamada “música brega” é rico nesses temas, temas bastante universais que abrangem do erudito inglês Shakespeare aos desabafos embriagados do “Zé do Botequim”, passando, claro, por textos deliciosamente trágicos Nelson Rodrigues e canções imortalizadas por Evaldo Braga, Waldick Soriano e Reginaldo Rossi, entre tantos outros.

Todo esse universo desemboca em ‘Torturas de Amor: Contos de Autores Nordestinos Baseados em Clássicos da Música Brega (Penalux, 2019), coletânea de narrativas curtas organizada pelo poeta, escritor e historiador campinense Bruno Gaudêncio e que acaba de ser lançada - já houve uma noite de autógrafos em Campina Grande e está se desenhando um outra aqui para João Pessoa, ainda neste mês de agosto.

Gaudêncio viu passar o cavalo selado das coletâneas temáticas e montou nele, afinal de uns anos para cá, se tornou comum encontrar textos inspiradas nesta ou naquela canção, como no ‘O Livro Branco - 19 Contos Inspirado em Músicas dos Beatles’ ou ‘Cobain: 25 contos inspirados em 25 anos do álbum Nevermind’, baseado nas canções que Kurt Cobain gravou junto ao Nirvana.

Agora foi a vez do cancioneiro que embalou histórias de relacionamento a dois, alegres ou tristes, nos anos 1970/1980 e que hoje, é visto com muito humor e deboche. Para isso, Bruno Gaudêncio partiu de uma playlist com 12 clássicos, de ‘Eu vou tirar você desse lugar’, de Odair José, a ‘Entre espumas’, de Roberto Muller, e distribuiu as canções com 12 autores nordestinos. Há escritores de Pernambuco, Maranhão, Ceará, Piauí e aqui da Paraíba, que mergulharam nessas músicas para extrair, delas, os mais diversos tipos de história de amor.

Pelo que se lê nos textos, a liberdade foi total. Roberto Menezes transformou a famosa canção de Márcio Greyck ‘É impossível acreditar que perdi você’ numa ode a relação de amor entre o narrador e seu gato, Elvis. No livro, tem de tudo um pouco: ‘Garçom’, um dos hits de Reginaldo Rossi, rendeu nas mãos do maranhense Bruno Azevêdo um thriller policial sobre um sujeito que morre depois de receber uma carta do seu grande amor, avisando que iria se casar, deixando em pedaços o coração dele.

A narrativa dinâmica e bem-humorada de Braulio Tavares transpôs o clássico ‘Se meu amor não chegar’, de Carlos André, para Campina Grande, embalando um namoro bem divertido entre a música brega e o punk. Contrasta com o tom introspectivo e melancólico de Débora Ferraz para outro clássico do gênero, ‘Tortura de amor’, de Waldick Soriano.

Outra faixa de Waldick Soriano inspirou Tiago Germano: ‘Eu não sou cachorro não’ rendeu a brilhante história de amor entre um taxista e uma passageira, atravessada por um cachorro vira-lata em meio à folia do bloco Cafuçu e uma aventura no Parque Arruda Câmara, a Bica, em João Pessoa.

Em 1992, Genival Santos lançou o LP ‘Eu não sou brinquedo’. A lamuriosa faixa-título rendeu, na pena de Ricardo Kelmer, de Fortaleza, o conto erótico ‘O Brinquedo’, um misto de Nelson Rodrigues, ‘Amor Estranho Amor’ (sim, aquele estrelado por Xuxa) e ‘Ela’, o filme de Spike Jonze estrelado por Joaquin Phoenix.

A coletânea ainda traz contos de Adrienne Myrtes (inspirado na canção ‘Eu vou tirar você desse lugar’, de Odair José); André Balaio (‘Fuscão preto’, de Almir Rogério); Astier Basílio (‘A beleza da rosa’, de José Ribeiro); Joana Belarmino (‘A cruz que carrego’, um dos maiores sucessos de Evaldo Braga); Kátia Borges (‘Você é doida demais’, de Lindomar Castilho) e Vanessa Trajano (‘Entre espumas’, de Roberto Muller).

 ‘Torturas de Amor’, que pode ser encomendado através do site www.editorapenalux.com.br, é muito bem-vindo à estante onde estão as (poucas) publicações que abordam o clássico cancioneiro brega. Que me consta, o livro organizado por Bruno Gaudêncio é o primeiro de contos inspirados nessa trilha sonora no Brasil. Mas há outros livros muito bons sobre esse pedaço da Música Popular Brasileira.

O ‘Almanaque da Música Brega’, lançado em 2007 e atualmente fora de catálogo (na Amazon, há sellers vendendo-o por até R$ 224) é uma enciclopédia que reúne biografias de centenas de artistas do gênero. Também fora de catálogo, ‘Eu Não sou Cachorro, Não’ é um olhar sobre a participação dos artistas bregas durante a Ditadura Militar. O livro foi escrito pelo historiador Paulo César Araújo, autor da biografia ‘Roberto Carlos em Detalhes’.

Aliás, na seara das biografias sobre os cantores e autores que deram vida à música brega, há pouquíssima coisa, mas elas estão surgindo. Não faz muito tempo, em 2017, que saiu ‘Eu Não Sou Lixo: A Trágica Vida do Cantor Evaldo Braga', escrita pelo pesquisador Gonçalo Júnior. Ou seja, um campo ainda vasto para contistas, pesquisadores e historiadores.

 

*publicada originalmente na edição impressa de 06 de agosto de 2019

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