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Uma lista que reflete os dias de hoje

por publicado: 20/10/2020 01h13 última modificação: 19/10/2020 10h15

 

Listas, listas, listas… eu as chamo de “meu bem, meu mal": ao mesmo tempo que acredito que toda lista traz distorções e equívocos - todas elas -, acredito no poder de baliza que elas têm, de nortear um recorte, seja em música, filme, literatura, teatro etc. Na semana passada, a revista de  música Rolling Stones apresentou uma revisão de uma de suas mais famosas listas: Os Maiores 500 Álbuns de Todos os Tempos!

Após 17 anos, a publicação - que segue ativa nos EUA em meios impressos - resolveu reunir um novo júri com 300 pessoas entre artistas, produtores, críticos de música e gente da indústria fonográfica. Cada um apresentou sua lista de Top 50 Álbuns de Todos os Tempos e a tabulação desse ranking deu origem ao resultado que foi impresso na edição deste mês da revista.

What’s Going On, que em maio de 2021 irá festejar 50 anos de existência, encabeça, desta vez, a prestigiada lista da RS. O disco de Marvin Gaye, que ficou na 6ª posição na avaliação de 2003, acabou por desbancar o venerado Sgt. Peppers, dos Beatles, que passou a figurar em 24º lugar, atrás de discos como Kid A, do Radiohead (20º), Exile on Main Street, dos Rolling Stones (14º) e Songs in the Key of Life, de Stevie Wonder (4º). Atrás, inclusive, de seu arquirrival Pet Sounds, dos Beach Boys (2º), e de outros dois álbuns dos próprios Fab Four: Abbey Road (5º) e Revolver (11º).

Quando se compara as duas listas, de 2003 e 2020, é possível observar que muitos álbuns permanecem ali entre as primeiras 25 posições, o arroz de festa de sempre (Nevermind do Nirvana; London Calling do Clash; Thriller, de Michael Jackson etc.). Mas há algumas surpresas e, acredito eu, que a ordem dos fatores seja fruto dos tempos atuais.

Blue, o mais famoso disco de Joni Mitchell, lançado em 1971, saltou da 30º posição para a 3ª. É um disco triste, como já indica seu título, uma trilha sonora melancólica que cai como um velho cobertor nos tempos sombrios de hoje. Os votantes também promoveram The Miseducation of Lauryn Hill, que deu um salto fenomenal: foi da 314ª posição em 2003 para a 10º. Isso há de significar alguma coisa!

A estreia solo da ex-vocalista do Fugees foi um marco quando lançado, em 1998. Ali, ela conseguiu combinar rap, soul e r&B com letras engajadas anti-establishment e levantou (não muito) sua voz doce contra as injustiças sociais contra as minorias. É um documento importante, sem sombra de dúvidas. 

Na mesma linha de “A Falta de Educação de Lauryn Hill”, ou seja, de empoderamento, It Takes a Nation of Millions to Hold Us Back, lançado dez anos antes pelo grupo de rap Public Enemy, saiu do 48º lugar para ficar entre os 15 primeiros da lista de 500. É um disco socialmente furioso (vide ‘Louder than a bomb’), que traz uma das faixas mais clássicas do hip-hop de todos os tempos e que, em tempos de pós-verdade, segue atualíssima: ‘Don’t believe the hype’.

Aliás, o discurso engajado do rap teve mais espaço desta vez. Além dos citados álbuns de Lauryn Hill e Public Enemy, My Beautiful Dark Twisted Fantasy, de Kanye West, e To Pimp a Butterfly, de Kendrick Lamar, que são dois discos novos (lançados, respectivamente, em 2010 e 2015, portanto, entram pela primeira vez na lista) conseguiram ficar entre os 20 primeiros.

Para mim, a lista reflete 2020, o ano da pandemia. Um ano que foi muito difícil para boa parte das pessoas em todo o mundo, repleto de tristeza e dor, aliado à recessão e dificuldades sociais e econômicas provocadas pelo coronavírus. Mas não é só isso. Reflete a situação política do mundo, que marcha no passo da extrema direita não só nos Estados Unidos, mas no Brasil e Reino Unido, para ficar em três exemplos onde o pensamento ultraconservador é mais gritante.

Todo esse caldeirão levou os discos que eu citei acima, com todos os seus discursos, impressos em letras ora sensíveis, ora agressivas, mas sempre contundentes, ao topo da lista. Portanto, não é de graça que Sgt. Peppers, um marco na discografia do rock e um dos pilares da cultura pop, tão inspirador, tão imitado, tenha caído 23 posições para dar lugar a What’s Going On e outros títulos socialmente engajados.

O disco de Marvin Gaye é, sem sombra de dúvidas, um marco na carreira do cantor soul, lançado em um momento de autoafirmação, de um artista que precisava se desvencilhar da figura do cantor romântico e das amarras que a prestigiada gravadora Motown lhe impunha.

What’s Going On (algo como: “o que é que está acontecendo”) mudava radicalmente a abordagem daquele homem negro, de pouco mais de 30 anos, vivendo numa América que ainda cultuava a segregação racial. Um país que lutava uma guerra inútil (na concepção do artista, segundo historiadores) - a Guerra do Vietñã - e que havia perdido uma grande parceria, a cantora Tammi Terrell, de apenas 24 anos, para um tumor do cérebro.

Tudo isso fazia das nove faixas do disco de 1971, um explosivo desabafo de inconformidade com um mundo que precisa ser urgentemente melhor. Com muita justiça, What’s Going On chegou ao primeiro lugar para fazer coro, hoje, às angústias sociais de Marvin Gaye, que permanecem vivas quase 50 anos depois. Infelizmente.

*coluna publicada originalmente na edição impressa de 20 de outubro de 2020

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