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Vampiros me mordam!

por publicado: 24/11/2020 09h00 última modificação: 24/11/2020 09h34
Ator canadense Jonathan Frid (1924-2012) imortalizou Barnabas Collins na TV e no cinema

Ator canadense Jonathan Frid (1924-2012) imortalizou Barnabas Collins na TV e no cinema


Eu gosto de vampiros! Gosto dessas criaturas sombrias que passam a noite na balada, dormem de dia, nunca ficam velhos, nunca morrem... Ser vampiro é o maior barato! Surgido bem antes do irlandês Bram Stoker botar seu Drácula na rua, há exatos 123 anos, as criaturas da noite que bebem sangue fresco e fogem do sol, como o diabo da cruz, vem sendo recriadas há eras (e o dito Drácula é apenas uma das milhares de releituras que a literatura e o cinema já produziram até aqui).

Já vi vampiro bon vivant, super-herói, branco, negro, japonês (há uma boa trilogia nipônica do diretor Michio Yamamoto, sem falar do simpático Don Drácula), coreano, brasileiro (sim, Bento Carneiro vem à mente neste momento), vampiro que envelhecia (David Bowie em Fome de Viver), vampira que anda de skate (Garota Sombria Caminha pela Noite, um filme iraniano muito bom), vampiro roqueiro (Garotos Perdidos), vampiro vaqueiro (Quando Chega a Escuridão), vampira criança (há tem várias, de Entrevista com o Vampiro ao sueco Deixa Ela Entrar), família de vampiros (a animação Hotel Transilvânia, que é um barato)... ufa! 

Engana-se quem acha que todos atendem pelo nome de Drácula. Aliás, para muitos, há um nome que rivaliza com o famoso conde da Transilvânia: Barnabas Collins.

Conheci Barnabas muito tarde, e já em uma de suas últimas encarnações, na pele do ator Johnny Depp, um fã confesso da série que deu origem ao personagem, Dark Shadows, levada ao ar na TV americana entre 1966 e 1971 (pelas pesquisas que fiz, ela nunca chegou a ser exibida no Brasil, embora nos EUA seja supercult, com fãs do quilate de Tarantino e Madonna).

Mas voltando a Depp: por volta de 2010, ele foi procurar o cineasta Tim Burton, com o qual fizera, até ali, sete filmes. Depp queria propor uma parceria com o diretor de Edward Mãos de Tesoura para levar ao cinema uma adaptação da série de TV. E assim, em 2012, chegava às telas Sombras da Noite, uma comédia de terror em que Depp encarnaria Barnabas Collins.

Barnabas nasceu em 1967, um ano após a estreia de Dark Shadows. Por essa época uma atração diurna, o seriado com toques góticos sobre o cotidiano da família Collins num imenso casarão não emplacava e ameaçava ser cancelado sem dó, nem piedade (especialistas avaliam que era muito moderna para a TV da época). Foi quando Dan Curtis teve a sacada de criar um parente vampiro para a família que o seriado teve uma tremenda reviravolta na audiência e se tornou o queridinho da América.

Não cheguei a ver o seriado – os extras do blu-ray de Sombras da Noite, que não são poucos, dizem muito a respeito da série, se o leitor estiver interessado –, mas vi o filme que derivou diretamente da TV, Nas Sombras da Noite, lançado originalmente há 40 anos. Dirigido pelo mesmo Dan Curtis, o longa-metragem mostra que, após séculos repousando em seu caixão, Barnabas Collins (imortalizado pelo ator Jonathan Frid, o mesmo da série de TV, que morreu em 2012, pouco depois de gravar uma rápida aparição no filme de Burton) é libertado e acaba por reencontrar seus descendentes na mansão da família.

Vi Nas Sombras da Noite recentemente, através de um DVD lançado pela Versátil (ele integra a caixa Vampiros no Cinema - Vol. 2) numa ótima cópia, restaurada. É um bom filme, até melhor do que eu esperava, mas a pérola mesmo é um depoimento de cerca de 30 minutos em que um pesquisador de cinema de horror afirma que esse filme, juntamente com Conde Yorga, Vampiro (presente na mesma caixa e também lançado em 1970) foi o responsável por introduzir, na mítica vampiresca, a razão pela qual Drácula, Barnabas e tantos outros vampiros se apaixonam pela mocinha da história: elas seriam reencarnações de amores antigos, subterfúgio que seria explorado, até hoje, em filmes como A Hora do Espanto, de 1985 (que eu tenho em conta em uma seleta lista afetiva), e o Drácula de Bram Stoker, que Francis Fordo Coppola lançou em 1992.

Vampiros me mordam, mas não conheço personagem mais complexo, intrigante, sinistro (e, algumas vezes, engraçado) do que as criaturas da noite. Além de que, acima de tudo, os vampiros são apaixonantes!

*publicado originalmente na edição impressa de 24 de novembro de 2020.

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