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Versão do diretor

por publicado: 15/12/2020 08h00 última modificação: 16/12/2020 09h29

Quase telefono, no fim de semana, para meus professores de cinema, ao menos os mais próximos, como João Batista de Brito, Alex Santos, André Dib, Martinho Moreira Franco e Renato Félix para tirar uma dúvida: afinal, uma obra audiovisual pode ser um eterno work in progress? A reflexão partiu com a estreia de O Poderoso Chefão – Desfecho: A Morte de Michael Corleone, uma “remixagem” de O Poderoso Chefão - Parte III.

Caso o leitor ainda não saiba, o diretor Francis Ford Coppola resolveu mexer em seu filme de 1990, o que encerra uma das trilogias mais famosas da história do cinema. Cortou cenas, colocou alguma coisa inédita e mudou o final da trama. Diz que, com isso, o filme ficou mais perto da ideia que ele e o poderoso escritor Mario Puzo desenvolveram para o terceiro filme da saga dos Corleone.

Mas precisou de 30 anos para que a “edição do diretor” finalmente viesse à tona? Se a ideia estava plantada ali, no fim dos anos 1980, quando o filme estava em produção, por que esperar tanto tempo? E, afinal, qual o filme que vale? A montagem de 1990, ou a de 2020, que altera substancialmente o desfecho? Devo ignorar o que vi nos cinemas, 30 anos atrás?

Não é a primeira vez que um diretor de cinema reapresenta sua obra modificada. Penso comigo que um dos casos mais famosos seja Blade Runner: O Caçador de Androides (1982), que teve não apenas uma, mas duas versões, uma do jeito que o diretor Ridley Scott queria, e outra aprimorada, em que ele pode aplicar os efeitos que pensou na época, mas cuja tecnologia tardaria a acontecer.

Não só em Blade Runner, mas também em Alien - O 8º Passageiro, Ridley Scott sempre disse que sua visão artística fora podada pelo estúdio. É que um filme nem sempre pertence ao diretor, mas sim ao produtor ou ao próprio estúdio, que contrata diretores para realizarem seus filmes. Dessa forma, no mundo capitalista que move Hollywood desde os primórdios, manda no filme quem bota o dinheiro na mesa.

O caso de Blade Runner é complexo. A “versão do diretor”, lançada em 1992, dez anos depois do filme estrear nos cinemas, nem foi rigorosamente comandada por Scott, embora ele tenha participado do processo junto à Warner Bros., detentora dos direitos da obra. O diretor só foi ter controle total sobra uma versão definitiva em 2007, quando saiu The Final Cut (“O corte final”) com as correções tecnológicas pretendidas pelo cineasta.

A quadrilogia Alien é curiosa: eu tenho na coleção um box contendo os quatro primeiros filmes da franquia lançados nos cinemas e suas respectivas “versões do diretor” (Scott dirigiu os dois primeiros, David Fincher, o terceiro, e o francês Jean-Pierre Jeunet, o quarto). A justificativa é a mesma: o estúdio tolheu a liberdade criativa do diretor. Recentemente, vi a versão de Fincher para Alien 3 e, de fato, muita coisa muda, desde o animal que o alien ataca no início do filme a diversas pontas soltas no roteiro, agora devidamente amarradas.

Outro caso famoso é o de Superman, aquela franquia estrelada por Christopher Reeve. Richard Donner, que havia feito o primeiro (um grande filme até hoje), teria entrado em conflito com a Warner que não compartilhava da visão madura que o cineasta tinha do super-herói na virada dos anos 1970 para 1980 (tom que seria adotado décadas depois pela Disney/Marvel). Por isso, o futuro diretor de Máquina Mortífera findou por abandonar o set de filmagens de Superman II: A Aventura Continua (1980), que acabou sendo concluído por Richard Lester.

Em 2006, depois de fazer as pazes com o estúdio, a Warner bancou uma edição do que pretendia Richard Donner na época, que concordou em voltar aos estúdios para reeditar o filme com uma visão mais próxima do que ele havia pensado, já que uma versão ao pé da letra era impossível, uma vez que parte do material que ele havia concebido sequer chegou a ser filmado.

Coppola nunca foi um “amigo” dos estúdios. Os comentários em áudios de suas obras, impressas em DVDs e blu-rays, costumam ser recheadas de críticas aos patrocinadores de suas obras e a trilha de O Poderoso Chefão - Parte III é, especialmente, amargurada (assim como a de Drácula de Bram Stoker).

Nem foi a primeira vez que Coppola mexeu em um filme. Em 2001, ele apresentou ao mundo uma versão estendida de Apocalipse Now (rebatizando-o como Apocalipse Now Redux), com quase 50 minutos a mais de imagens e um filnal modificado daquele exibido nos cinemas em 1979. Achou pouco. Ao ser procurado pelo estúdio para restaurar sua obra-prima em 4K, ano passado, ainda mexeu mais um pouco e relançou o filme como Apocalipse Now: The Final Cut.

Reza a lenda que, ao revisitar a família Corleone no fim dos anos 1980, 16 anos depois de O Poderoso Chefão - Parte II, os estúdios exerceram pressão do título à abordagem da terceira parte da trilogia (eles teriam recusado, inclusive, o título que ele conseguiu colocar este ano). Agora, aos 81 anos, entrega o que parece ser a versão definitiva do filme, e pelo que dizem, o filme ficou melhor. Veremos...

*coluna publicada originalmente na edição impressa de 15 de dezembro de 2020.

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