“Contar carneirinhos (ou ovelhinhas) para dormir” é uma expressão bastante difundida visualmente nos desenhos norte-americanos oriundos dos anos 1930, indo bem além do pós-Segunda Guerra Mundial. Com origem na cultura árabe do século 11, popularizada na Espanha medieval, a prática reflete no título de uma das principais obras do escritor de ficção científica Philip K. Dick (1928–1982): Androides sonham com ovelhas elétricas? (1968), romance que originou a adaptação cinematográfica Blade runner (1981).
“Como tornar nossa inteligência artificial (IA) humana?”, essa é a pergunta primordial no relatório do ano de 2046, assinado pela diretora da Tomorrow Foundation, a professora Noriko Ito — texto que serve de introdução para a história em quadrinhos Carbono & Silício (QS Comics, 272 páginas), do francês Mathieu Bablet (de Shangri-La e A bela morte).
Relembrando as aulas de outrora, o carbono é um elemento químico não metálico, fundamental para a vida na Terra e a base da química orgânica; já o silício é um elemento químico semimetal essencial para a tecnologia moderna, extremamente abundante na crosta terrestre (sendo o segundo mais comum, perdendo apenas para o oxigênio).
No álbum, Carbono e Silício são nomes próprios de um casal de robôs criados nos laboratórios da Tomorrow Foundation para cuidar de uma humanidade envelhecida. Uma diretriz que deveria ser obedecida até o fim das suas “vidas”, cuja obsolescência programada ficou definida pelos cientistas e pesquisadores para 15 anos ― “A vida de um gato”, segundo Noriko Ito, pois máquinas não podem viver mais do que humanos, devido à relação de servidão.
Na questão de saber o que falta para caracterizar a “individualidade humana” para as máquinas protagonistas, a equipe de cientistas chegou a uma conclusão: a essência pode ser resumida ao desejo de vida e a uma hierarquia relativa de necessidades fundamentais, como beber, comer, dormir, copular, ter sensações de pertencimento e sucesso, dentre outras.
Porém, atentem que a diretriz principal deveria ter sido obedecida. Carbono e Silício deixam para trás o controle do laboratório e seguem rumos distintos. É o início de quase quatro séculos observando um mundo “familiar” que já não reconhecemos mais, devido à destruição infligida pelo homem.
Enquanto Carbono, inicialmente recapturada, questiona por que quer se automutilar ou chorar; Silício descobre todo um globo para explorar ― como um andarilho cyberpunk ― e se isola cada vez mais.
O que veremos com o passar dos capítulos e das décadas, além da ação do tempo nos robôs protagonistas e no planeta, é a busca de um deles em construir uma conexão ― e um destino comum ― entre as inteligências artificiais. Vão as máquinas cometerem o mesmo erro dos humanos, sendo elas mesmas mais “humanas”?
Como no título do livro de Philip K. Dick, que passa pelo viés do sonhar, elas podem traçar um novo caminho. A melhor obra de Bablet lançada por aqui.
*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 13 de maio de 2026.
