Não basta apenas cavar mais fundo na cova da memória brasileira, mas também pegar a pá para retirar o pó da cova rasa do que aconteceu nos últimos anos. Igual àquela pergunta básica: Em quem você votou nas últimas eleições? Se mentira tem perna curta, a memória pode ter pequenas demências.
Os momentos de apreensão pré-vacina, o uso de máscaras, o distanciamento social, o isolamento, os cuidados com a higienização, o número de infectados, o número de vítimas fatais, o descaso de um (des)governo, a falta de oxigênio e de leitos.

- Com arte de Felipe Parucci, a história real tem base na vivência do médico português Luís Moreira Gonçalves | Imagens: Divulgação/Comix Zone
Diziam que a pandemia duraria apenas três meses. Erraram. Pensavam que o vírus não resistiria ao calor. Erraram de novo. Avisaram que o sistema de saúde da Amazônia poderia colapsar. Dessa vez, acertaram...
Um recorte da crise sanitária e do cotidiano de um hospital de campanha em Rondônia é o que podemos testemunhar em Dormindo entre Cadáveres (Comix Zone, 320 páginas), desenhada (e corroteirizada) pelo carioca radicado em São Paulo, Felipe Parucci, com base no roteiro e na vivência do médico português Luís Moreira Gonçalves, protagonista desse álbum.
Gonçalves não tinha intenção de ser médico: fez graduação e doutorado em Química e depois veio o curso de Medicina para ajudar nos seus interesses de pesquisa, combinando as duas áreas. Na época, ele era do corpo docente da Universidade de São Paulo (USP), que tinha suspendido as aulas presenciais havia quase um ano.
Porém, Gonçalves recebeu um e-mail da Secretaria de Saúde do Estado de Rondônia, convocando médicos para os hospitais de campanha. Ele foi um dos dois voluntários que atendeu a convocação (depois ele saberia que a outra pessoa tinha desistido após algumas semanas).
Quatro dias depois, já estava em Porto Velho começando o plantão. Teve até que ver procedimentos no YouTube, com o enfermeiro segurando o aparelho celular. Toda a ajuda era bem-vinda, mesmo que seja de um médico que teria a sua estreia na atuação clínica.
O roteirista e médico trabalhou de fevereiro a abril de 2021. Naquele último mês, o pico das mortes por Covid-19 no Brasil, os óbitos ultrapassaram 3 mil por dia. Mesmo para quem não pisou em um hospital naquela pandemia, é impossível ficar incólume com os casos e depoimentos.
O desespero de um dos pacientes pedindo para não deixá-lo morrer, prestes a ser entubado na UTI, é o resumo de toda a aflição que residiu no hospital de campanha da Zona Leste, em Porto Velho, Rondônia. Um de muitos naquele estado. Um de milhares em todo o país. Uma verdadeira zona de guerra: a falta de recursos, areação de cada um dos familiares após a notificação de uma morte, o foco e o desespero de salvar e perder vidas, respectivamente.
Antes de tudo isso, de jogar o público para a linha de frente do combate à pandemia, Dormindo entre Cadáveres mostra a alteração da rotina do próprio Felipe Parucci, quando o quadrinista morava em Florianópolis (SC), até ser convidado por Luís Moreira Gonçalves para entrar no projeto, já na pós-pandemia.
Um pouco da “calmaria” antes do vendaval arrastar tudo, inclusive a nossa memória. Por isso, uma obra vital.
*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 21 de janeiro de 2026.