Criado pela DC Comics, editora que é a casa de super-heróis como Superman, Batman e Mulher-Maravilha, num momento turbulento para os quadrinhos norte-americano (ou comics, se preferir) no pós-Guerra, o Caçador de Marte (ou J’onn J’onzz, ou ainda Ajax — apelido criado no Brasil, pela Ebal que perdurou até a Abril Jovem) é um dos fundadores e um dos membros mais poderosos da Liga da Justiça.
Sua primeira aparição foi em 1955, pouco tempo depois do psiquiatra alemão radicado nos EUA, Frederic Wertham, ter publicado o ódio aos comics e alertando aos país dessa “fábrica de fazer delinquentes” no livro A Sedução dos Inocentes (que, a título de curiosidade, foi publicado recentemente por aqui, pela Editora Noir, com um livro de notas que contextualiza e explica todos os seus aspectos). Às portas da chamada Era de Prata, o personagem teve sua primeira aparição na revista que revelou um tal de “Homem Morcego”, na Detective Comics 255, escrita por Jack Miller e desenhada por Joe Certa.
Para fazer um resumo, entre uma origem mais antiga e a atualizada, o personagem é o último nativo da sua espécie no planeta Marte, cuja família e a população foi dizimada por uma peste. Ele conta com uma imensa força, telepatia e transmorfismo, além de outras características sobre-humanas. Um dos traços mais marcantes é a sua fraqueza ao fogo.
No ano de 2024, a DC lançou seu novo selo, o Absolute, como parte de uma iniciativa batizada no Brasil de DC Sem Limites (DC All In, no original). Esse novo universo editorial apresenta versões reimaginadas e mais sombrias de personagens clássicos, similar ao Universo Ultimate, que a rival Marvel adotou décadas atrás. Resultado: um sucesso absoluto, com o perdão do trocadilho.
Por aqui, já foram publicadas as primeiras edições da “trindade” — Superman, Batman e Mulher-Maravilha —, agora, neste mês, sai a primeira revista do “lado B” da editora: Absolute Caçador de Marte 1 (56 páginas, Panini Brasil), com as duas primeiras edições norte-americanas.
É impossível, depois de todo esse arrodeio espaço-temporal, não deixar de afirmar que a nova visão do personagem tem uma “reviravolta” que é revelada no final da primeira parte. Por isso, vou tentar ao máximo não expô-la neste texto.
Escrito pelo filipino-americano Deniz Camp, um artista que passou por títulos que não conhecia, como os da editora Valiant Comics, acompanhamos a vida de um agente do FBI, John Jones, logo após ele ser vítima de um atentado a bomba em Middleton, uma cidade do estado de Wisconsin, nos EUA.
Com um roteiro dinâmico e enxuto, no qual algumas dúvidas são respondidas e outras, mantidas, Camp vai mantendo o mistério até o fim do capítulo, na qual o leitor tem que colocar a última página na contraluz para “enxergar” pela transparência o que está dentro do protagonista. Uma sacada que só pode ser usada no material físico e que já foi utilizado com a mesma genialidade por outros autores, como o personagem que consegue ver fantasmas na série Rising Stars, de J. Michael Straczynski.
Não podemos falar do Absolute Caçador de Marte sem seu desenhista, que também é vital para a série. Nesta coluna, já tinha falado do espanhol Jávier Rodriguez no encadernado Zatanna: Quebrando Tudo (Panini), mas aqui sua arte e cores se superaram.
Para se ter uma mínima ideia de como essa série é realmente bem acima da média, no segundo capítulo apresentado neste primeiro número, há um atirador que alega saber que existe alienígenas disfarçados entre nós. “Na maioria das vezes, a cor da pele tá errada, e quando tentam falar nossa língua, o resultado é esquisito!”, teoriza o personagem. Para um leitor desavisado é apenas uma dica de como ele procura esses extraterrestres. Para os mais atentos, é mais uma camada que Deniz Camp coloca, fazendo uma alusão a outros seres (humanos) que migram para outro país. Tudo reforçado mais à frente, em um painel feito por Rodriguez do homem atirando e as vítimas sendo refletidas dentro do seu corpo. Quais as características delas? Não é mera coincidência.
Javier Rodríguez tem uma habilidade peculiar em criar esses painéis da forma mais criativa possível, mesmo que tenha um espaço mínimo na sua diagramação, destacada pelas cores fortes. Quando o personagem resolve inspirar as cores ao seu redor, notamos que elas são, na verdade, os pensamentos das pessoas, pairando no ar — assim como os balões e as próprias histórias em quadrinhos, que são chamadas de Fumetti na Itália. Ou seja: derivado de “fumaça” (fumo).
Lá fora, os autores queriam acabar a série no número seis. Porém, devido ao grande êxito nas vendas e das críticas positivas do nosso “Ajax” remodelado, a dupla vai ficar até o número 12. Sinergético na realidade e na ficção.
*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 18 de fevereiro de 2025.