Brian Michael Bendis é um escritor de quadrinhos reverenciado e odiado. Muitos gostam de como conduz grande parte das suas tramas, com diálogos que soam espontâneos e naturalistas, outros acham ele tão chato quanto os balões cheios até quase estourar de palavras prolixas de um Chris Claremont da vida.
Com base nos seus diálogos, ele sabe muito bem arregimentar uma trama policial ou investigativa. Infelizmente, as suas primeiras (e elogiadas) obras permanecem inéditas no Brasil: Torso, uma minissérie com arte de Marc Andreyko, baseada na história verídica do “Açougueiro Louco de Kingsbury Run” e nos esforços do famoso policial Eliot Ness (aquele agente da Lei Seca de Os Intocáveis) para capturá-lo; e Jinx, série desenhada pelo próprio Bendis sobre uma caçadora de recompensas e o seu relacionamento com um criminoso procurado. Esta última, inclusive, batiza o novo selo autoral do roteirista, o Jinxworld.
Resumindo, posteriormente o Bendis migrou para os super-heróis, pintou e bordou com personagens como o Demolidor, massacrou grupos como Os Vingadores e confundiu mentes com sagas como Invasão Secreta. Porém, a sua maior contribuição para o gênero foi uma série “adulta” (do finado selo Max, da Marvel): Alias, com arte de Michael Gaydos, estrelando uma detetive particular com muita personalidade, sem papas na língua e ex-super-heroína (colocada retroativamente na cronologia da editora, com os mágicos e famigerados retcons). Foram apenas 28 números, no começo dos anos 2000. O sucesso foi tão grande que gerou uma série no streaming ostentando o nome da protagonista, Jessica Jones.
Décadas depois, a mesma dupla premiada está de volta em Pearl: Tatuagens de sangue (Mythos Editora, 352 páginas), a primeira série do Jinxworld no Brasil. Ótimo. O retorno dos autores de Alias, com uma mulher como personagem principal. Quando fala-se de “autoralidade”, já ligamos como uma peça de quebra-cabeças à “liberdade” e, consequentemente, uma boa história. Mas nem isso é espremido da obra.
O público aposta na volta dos diálogos de naturalidade escrito por Bendis, mas eles não sustentam tanto a protagonista quanto a trama em si. Pearl é tatuadora nipo-americana albina que vive em São Francisco, à sombra da Yakuza. Quando um membro de outro clã do crime organizado se aproxima dela, algo dá errado e Pearl tem que lidar com as consequências.
Há uma ou outra reviravolta interessante, mas nada sustenta os 12 números encadernados de um enredo sem graça, com uma personagem ensossa (com um segredo sob a pele que não serve para absolutamente nada — minto: tem a utilidade de “ser estilosa”).
Michael Gaydos está na sua melhor fase, mas isso não diz muito de um desenhista repetitivo e muito “estático”, principalmente quando o roteiro exige dele as cenas de ação. Seria melhor se fosse apenas um capista. Dispensável.
*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 04 de fevereiro de 2026.
