Desde quando foi publicado pela primeira vez, em 1945, há uma infinidade de versões do livro A revolução dos bichos, do inglês George Orwell (1903–1950), seja no audiovisual, no teatro, nos quadrinhos ou na própria literatura. Para quem não conhece a obra, é uma fábula satírica que narra a rebelião dos animais da Granja do Solar contra o seu dono opressor. Eles tomam o poder para criar uma sociedade igualitária, mas, passado o tempo, os porcos se corrompem, instaurando uma ditadura tão tirana quanto a anterior.
Nos mundo das HQs, cheguei a analisar neste espaço, na edição do dia 15 de abril deste ano, O abrigo dos animais (Taverna do Rei), de Tom King, Peter Gross e Tamra Bonvillain. A diferença é que o mote tem base e clima dos Estados Unidos da “era Trump”, na qual a agência federal de polícia de imigração local age com “mão de ferro”.
Desta vez, saímos do cenário urbano e retornamos para o ar bucólico do “original”, trocando a fazenda por um castelo isolado e abandonado há muito tempo pelos seres humanos. Trazida pelo roteirista prolífero Xavier Dorison e ilustrada por Félix Delep, O castelo dos animais (Editora Nemo, 288 páginas) chega ao Brasil em edição integral, reunindo seus quatro álbuns lançados na Europa.

- Em O castelo dos animais, um temível touro ditador e a sua violenta milícia canina são desafiados pacificamente por uma carismática gata e os demais bichos
Nas primeiras páginas, o leitor já é jogado no “sistema” ditatorial da comunidade, comandado com “casco de ferro” por Silvio, um enorme e aterrorizante touro, que é acompanhado pela sua violenta milícia canina. Divididos em diversas e árduas tarefas — desde apanhar lenha no inverno, até reconstruir partes da fortificação —, os bichos sobrevivem perante a humilhação e os maus-tratos. Para quê? Simplesmente para o seu comandante, afastado do castelo, fazer negócios com o único humano que encontramos na obra, trocando as mercadorias em champanhe e ração para a sua matilha e “agregados”.
Contra esse regime, uma aliança improvável é formada por três animais: Miss Bengalore, uma gata corajosa que luta para proteger seus filhotes (os únicos felinos do lugar); César, um coelho espirituoso que passa noites “acasalando” com suas amantes coelhas; e Azelar, um velho e sábio rato andarilho, que estava ali só de passagem.
Com as margaridas como seu símbolo, eles encontram inspiração em Mahatma Gandhi (1869–1948) para promover uma revolução de forma totalmente pacífica e não violenta. O famoso estadista indiano foi apresentado aos animais do castelo por Azelar, que viaja pelo mundo fazendo seu didático teatro de sombras com base nas suas vivências.
Auxiliado pelos belos desenhos (e capas) de Delep, a narrativa de Dorison mostra como os animais (com personalidades bem definidas) podem ser mais “humanos”, unidos contra a opressão. Uma bem articulada sátira baseada em Orwell, mas que não é apenas uma “fotocópia” da mesma. Provavelmente, uma das melhores HQs deste ano.
*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 27 de maio de 2026.