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Resenha

Sob o olhar de Midas de um cronista do traço

publicado: 24/06/2026 08h30, última modificação: 25/06/2026 09h32
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Em Muito além daqui, vigia noturno busca aventura no Alasca, bem longe da sua vida solitária e monótona | Imagens: Divulgação/Pipoca e Nanquim

Muito difícil ser um “cronista do traço”. À noite, caso dê uma espiada pelas janelas da recepção de um estacionamento subterrâneo de uma determinada cidade, poderá ver um vigia noturno alternando os olhos nos monitores que mais parecem quadros de natureza morta para um pedaço de papel que paira tranquilamente seus rabiscos.

Entre eventuais bêbados e utensílios perdidos, o único contato que tem com o mundo é com o seu colega de trabalho, nos poucos minutos que este irá rendê-lo. Mesmo assim, a janela do celular é mais convidativa. Em 20 anos de trabalho é assim: acorda quando todo mundo vai dormir, dorme quando todo mundo acorda. Sem férias, sem um “bom-dia” sequer de vizinhos que ele nem mesmo sabe as feições, muito menos os nomes. 

Porém, estamos na véspera da primeira vez que ele vai tirar férias. Entocando na mochila um famoso conto de Jack London (1876–1916), que estava abraçado de conchinha com um manual de sobrevivência na sua cabeceira, o homem vai encarar duas semanas no Alasca, encarando “o fim do mundo” como os garimpeiros da época. Uma viagem para trazer ouro nos olhos, não nos bolsos.

Pelo menos, esses eram para ser os seus bem-traçados planos.

Em Muito além daqui (Editora Pipoca e Nanquim, 156 páginas), o quadrinista francês Christophe Chabouté prepara o público leitor para uma grande epopeia de sobrevivência, assim como retratou em Acender uma fogueira (lançado no Brasil também pela Pipoca e Nanquim), adaptação homônima do conto de London que já avaliei neste espaço, na edição do dia 23 de julho de 2025.

A partir deste ponto, não posso mais revelar nada para que o leitor e a leitora tenham uma imersão completa na viagem do protagonista, com todos os detalhes, pessoas e situações que ele vai encontrar nessa aventura, bem longe do lugar-comum da sua vida notívaga, solitária e monótona.

Quando vai traçando a epopeia, Chabouté mostra como tem o pleno domínio dos contrastes: o nanquim carregado para a noite e a brancura da página ajudando a jogar luz nos marcantes dias de férias do vigia noturno.

Mesmo o personagem principal utilizando um “caderno de viagem” para anotar e rabiscar o que fez durante os dias de folga, o silêncio ecoa por entre as páginas da obra, obrigando quem está lendo também ser um paciente observador. percebendo o que está ao seu redor, mesmo que estivesse ali por muito tempo, mas não fosse percebido, sendo “invisibilizado” pelo cotidiano da vida.

Mais como “recortes” do que como narrativa, Chabouté fez do “silêncio” um dos protagonistas no seu primeiro álbum publicado no Brasil, Um pedaço de madeira e aço (Pipoca e Nanquim, 2018), no qual acompanhamos a “vida” de um simples banco de praça pública, arrodeado de coadjuvantes na poesia do seu dia a dia. Em Muito além daqui o autor também trabalha com o uso das cores, mesmo que a obra seja majoritariamente em preto e branco.

Como já disse, é muito difícil ser um “cronista do traço”. Chabouté sabe ser um. E com total maestria. Como ouro.

*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 24 de junho de 2026.