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Resenha

Três vidas para apenas uma fuga do Jardim do Éden

publicado: 01/04/2026 09h11, última modificação: 01/04/2026 09h11
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Partindo de um assassinato, focando em três distintas gerações de mulheres, Ninfeias negras é a melhor HQ do ano de 2025 | Imagens: Divulgação/QS Comics

por Audaci Junior*

Havia três mulheres de gerações diferentes, no vilarejo francês que tinha nome de jardim, Giverny, famoso por conta de estar entre as molduras do pintor impressionista Claude Monet (1840–1926): a primeira ― uma amargurada e solitária senhorinha viúva ― era má; a segunda ― uma jovem professora que trai o marido ― era mentirosa; e a terceira ― uma popular garota de 11 anos que mora com a mãe ― era egoísta.

Nesse cenário, entre as ninfeias (plantas aquáticas pertencente à família Nymphaeaceae) que já serviram de modelo para Monet, um assassinato cutuca a calmaria “populosa” do local.

Esse é o estopim para acender o rastilho da grande explosão criativa que é a narrativa de Ninfeias negras (QS Comics, 144 páginas), um dos melhores quadrinhos lançados no Brasil no ano passado ― se não for “o” melhor. 

A obra adaptada por Fred Duval (roteiro) e Didier Cassegrain (arte) tem como base o premiadíssimo romance homônimo de Michel Bussi (que tem uma edição nacional pela editora Arqueiro).

À medida que a investigação avança, diversos personagens desfilam pelas páginas, incluindo os dos “universos” de cada uma das mulheres supracitadas. O leitor e a leitora não se perdem na trama, que vai se encaixando até termos um vislumbre total do quebra-cabeças, com direito a grandes reviravoltas e de uma forma narrativa que apenas as histórias em quadrinhos poderiam dispor. Essa última afirmativa é fincada nesta coluna sem ter o conhecimento de como é tratado no romance original.

Quando terminamos de ler o álbum, logo se tenta imaginar como Duval e Cassegrain adaptaram a obra de Bussi. Sem saber a base literária, é uma forma bastante curiosa de como a dupla solucionou os problemas narrativos visualmente.

Interessante perceber que, fora o fato de morarem no mesmo vilarejo, o distinto trio feminino está cercado por grades invisíveis, procurando cada uma a sua “fuga” particular, seja revelando um mistério, ou ganhando o reconhecimento num concurso de pintura, ou ainda vendo num amoroso forasteiro a saída para essa clausura. Nesses dias de investigação, as regras eram cruéis: apenas uma poderia conseguir a tão cobiçada liberdade.

Quando os segredos do passado começaram a vir à tona, os autores conduzem os vários personagens sem se perderem, mostrando também todos as vertentes do caso de assassinato no pacato vilarejo francês. Na verdade, nem tão calmo assim, já que a senhorinha viúva vive reclamando de como as ruas estão abarrotadas de turistas.

Ninfeias negras é separado por apenas duas partes. A última, batizada de “Exposição”, é a mais didática, mas isso não implica em dizer que é chata ou pedante. Até a última página, a obra impressiona nas guinadas. Reforço: literalmente na derradeira página, o álbum pode passar de um “final triste” para um “final feliz” em um estalo, porém sem soar forçado ou gratuito.

Qual das três mulheres conseguiu fugir?

*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 1º de abril de 2026.