Se gosta de ler mangás — os quadrinhos japoneses —, mais especificamente os chamados seinen (para o público adulto), sabe que grandes obras no quesito de samurais errantes (os ronins) são o clássico Lobo Solitário, o incompleto Vagabond e o radical Blade — A lâmina do imortal. Porém, quando é colocado o nome de Taiyo Matsumoto na capa, pode se preparar para algo mais único, vide obras como Tekkon Kinkreet (antes conhecido como Preto & Branco), Sunny e Os Gatos do Louvre.
Não é de se estranhar ter na primeira página de Takemitsu Zamurai — O samurai da espada de bambu (Editora JBC, 232 páginas) o protagonista acha uma mosca ser “lerda” demais. “É como se eu pudesse acompanhar cada batida de suas asas”, comenta mentalmente Soichiro Seno, aos sorrisos.
Mais à frente, ele fica por muito tempo admirando um polvo na feira, a ponto de encabular o vendedor, além de perambular a esmo pela cidade de Edo (antigo nome de Tóquio, capital do Japão de 1603 a 1868) para acompanhar o ritmo de uma borboleta.
Soichiro é um ronin bastante peculiar: imaginativo, gosta de doces, fica tagarelando sozinho com o seu sotaque rústico e tudo que sabe sobre o manejo da espada foi passado pelo próprio pai.
Curioso e atento, ele chega a engatinhar como os felinos vira-latas, provocando-os: “Vocês conseguem entender o que dizem os humanos, não é?!”, atiça ele para um casado de gatos. “Não só entendem, como também fingem não saberem de nada, né?!”. Inclusive, o título do primeiro capítulo é “Segundo o gato, esse homem fede a sangue”.
Recém-chegado em Edo, Soichiro instala-se num cortiço, despertando o interesse do seu vizinho, o garoto Kankichi, filho do carpinteiro. Essa curiosidade acaba transformando-se em amizade.
Assim como Soichiro, o quadrinista Taiyo Matsumoto não está sozinho. O roteiro de Takemitsu Zamurai é assinado pelo premiado Issei Eifuku, que foi assistente em Straight, obra lançada no início da carreira de Matsumoto, em 1989, e inédita no Brasil.

Mesmo com a adição de um roteirista, o clima da série (em oito volumes) permanece única, no que diz respeito às outras obras de Matsumoto, que também emprega essa singularidade no seu traço — simples, mas cheio de detalhes, com uma pegada experimental, estranhamente anguloso e de uma crueza bastante expressiva, rompendo com os padrões estéticos convencionais dos quadrinhos japoneses. Ele chegou a afirmar que “bebia” dos comics norte-americanos e dos autores europeus, a exemplo do francês Moebius (1938–2012).
Uma arte que auxilia demais na narrativa, devido ao uso da imaginação dos personagens. Quando um bando bate em retirada depois de experimentar a espada de madeira do Soichiro, o ronin imagina os guerreiros como peixes sendo dispersados quando se joga pedras no lago. Essas comparações (ou reimaginações) aparecem de vez em quando na obra, até mesmo nas perspectivas de combates, que podem não ser o que aparentam.
Para os próximos volumes, a série tem um gancho com um misterioso assassino em série que atua no cortiço, além da curiosidade.
Entre fantasmas (de seres humanos e espadas), situações líricas, samurais sui generis e uma rica imaginação, além de colecionar diversos prêmios pelo mundo afora, Takemitsu Zamurai é um caminho surreal e único, como nenhuma outra história de samurai jamais trilhou.
*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 04 de março de 2026.
