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Utopia para todos, sofrimento para poucos

publicado: 29/04/2026 09h13, última modificação: 29/04/2026 09h13
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Em Os sacrificados, há uma “colheita” de filhos para manter a paz universal | Imagens: Divulgação/Panini Brasil

por Audaci Junior*

Na atualidade, o roteirista Rick Remender é um pop star dos comics norte-americanos. Responsável por quadrinhos como Deadly class, Black science, Low, Tokyo ghost (todos já lançados no Brasil, pela Devir) e outras séries da Image Comics, ele também tem um trabalho notório na Marvel, usando personagens e grupos como os X-Force, Vingadores e Capitão América.

Para mim, ele nunca foi um escritor “fora da curva”, mas vez por outra aparecem obras que chamam a atenção, como Os sacrificados (Panini Brasil, 192 páginas). Logo de cara — na capa — há um “pombo humanoide” que parece saído de um desenho animado, mas com um semblante de sofrimento.

Padecimento com razão: o universo é um paraíso, mas isso tem um preço. A paz promovida por cinco clãs divinos depende de um sacrifício que ocorre a cada duas décadas. O tributo é colhido com a entrega de livre e espontânea vontade das famílias das castas baixas. O produto? Um filho excluído. 

Neste primeiro volume, que compila as seis edições originais publicadas nos EUA pela Image Comics, somos apresentados ao jovem aviano da capa. Sofre que nem Cristo, com direito a açoitadas do pai de cinto, um “aperitivo” do que vem por aí, quando ele será levado pelos emissários.

A caravana passa por outras famílias, incluindo criaturas que são agradecidas por serem acolhidas e marcham em grilhões com uma felicidade que transborda, acreditando que vão ser acolhidas no verdadeiro paraíso criado por seus deuses.

Em paralelo, vemos o cotidiano dessas divindades, especialmente na perspectiva de uma filha abastada, Soluna, filhas dos deuses Sol e Lua, que habita os palácios celestiais com certo tédio.

O ser emplumado tem a árdua tarefa de dar tudo por uma família que nunca o amou e a semideusa está disposta a destruir uma utopia. Num mundo onde nada é o que parece, a vida eterna é a chave para os problemas de alguns e a escravidão disfarçada de paz é o que pode ser encaixado como uma luva nessa insólita sociedade.

Falar mais do que isso é estragar a leitura, que é rápida e instigante, mesmo que não seja nenhuma “novidade” na sua base da aventura: paz coletiva em detrimento ao sofrimento de alguns. O que acrescenta na obra é a bela arte de Max Fiumara.

*Matéria publicada originalmente na edição impressa do dia 29 de abril de 2026.