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ESPORTES: Responsabilidade coletiva


Já não fazia sentido a realização de jogos com portões fechados desde os primeiros alertas sobre o perigo que o novo coronavírus apresentava ao mundo. Governos e autoridades sanitárias pediam que se evitassem aglomerações, e os dirigentes do futebol por todo o mundo entendiam que bastava não deixar ninguém ir aos jogos, mas o calendário poderia ser mantido normalmente. Ficou provado que o futebol moderno nunca foi para os atletas, para os clubes, ou mesmo para quem ama acompanhar futebol, torcer, sofrer e vibrar pelo esporte. O futebol moderno é dos patrocinadores, dos grupos de comunicação e dos cartolas, que lucram com isso. Estádio vazio só faz sentido para quem exibe pela TV e para quem paga por isso. Mas isso é pauta vencida.

Na Itália, a população demorou a entender a gravidade do problema. Uma pandemia, conforme declarou a Organização Mundial de Saúde. E com o vírus circulando, ainda havia futebol. Depois houve jogos com portões fechados, mas já era tarde. O vírus estava pelo país inteiro, e parte disso aconteceu em meio às partidas de futebol.

Há um pouco de inconsequência em cada parte que compõe o estádio lotado: o Estado, que permitiu o evento mesmo sabendo dos riscos; os organizadores, que também tinham plena consciência do perigo à sociedade; e o público, este, mais vítima do que algoz, porém também partícipe na insensatez coletiva e em tudo o que resultou a partir das aglomerações num momento indevido. Quem morreu pagou a conta.

E aqui farei um parêntese com um pequeno texto que publiquei ontem no meu perfil no microblog Twitter: “Sabem esses depoimentos dos italianos relatando o quanto eles não deram a devida importância à pandemia nas semanas anteriores ao agravamento da situação por lá? Pois lembremos que em João Pessoa foi permitida a realização de uma corrida de rua lotadaça no último domingo.”

Me referi à corrida realizada pela Redepharma no último domingo (15), na praia de Tambaú.

Os organizadores sabiam dos riscos.

A prefeitura de João Pessoa tanto sabia do perigo que havia cancelado novas corridas de rua a partir do dia seguinte, a segunda-feira (16).

Os participantes também sabiam da ameaça, pois haviam recebido e-mail confirmando o evento, e nos grupos de corridas nas redes sociais não se falava em outra coisa a não ser a possibilidade de cancelamento.

Há dois pontos a se considerar e que devem ser lembrados quando o novo coronavírus estiver bem disseminado na capital paraibana.

O primeiro e mais elementar é que empresário algum quer ter responsabilidade social coletiva em prol de um bem maior e absorver o prejuízo de um evento adiado e de centenas de pedidos de reembolso. Pouco importava se havia ali atletas inscritos infectados, ou mesmo funcionários trabalhando no evento e que poderiam disseminar o vírus. 

O segundo ponto é mais importante: farmácia vende remédio. Mesmo que não haja um medicamento específico contra a doença, de domingo pra cá os estoques de álcool em gel, vitaminas e demais drogas que supostamente ajudam na imunidade estão escassos. Há uma infinidade de setores que vão quebrar com a quarentena, e alguns que irão faturar. O último evento que promoveu aglomeração em João Pessoa foi realizado por uma rede de farmácias. Longe de mim conspirar que foi proposital. Mas que foram irresponsáveis, é fato.

 

*publicado originalmente na edição impressa de 19 de março de 2020.

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