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Pior foi Alex

por publicado: 11/11/2022 10h38 última modificação: 24/11/2022 11h29

por Felipe Gesteira*

Salviano já tinha visto de tudo no que diz respeito ao sofrimento brasileiro em Copas do Mundo. De todo aperreio presenciado pelo aposentado que acompanha mundiais desde o bicampeonato da Seleção, em 1962, o que mais lhe fascina é o choro. Ele nega de pés juntos que tenha chorado com a inimaginável derrota em 1982, do time que para muitos é até hoje o melhor da história do futebol. De acordo com o torcedor veterano, seu coração já estava calejado pelas lágrimas derramadas em 1966, naquele fiasco que sequer rendeu classificação para além da fase de grupos. A decepção foi tanta que o fez assistir à Copa de 1970 sem expectativa alguma, o que lhe rendeu grande surpresa e alegria, ainda mais com transmissão pela TV, em cores.

O choro na maioria das vezes vem mesmo é com a derrota. Vem e de muito. Choro de fazer soluçar. Aquele da decepção, da perda inesperada, do salto alto que dá como certa a vitória, do reconhecimento que o adversário era mesmo maior. Quando o juiz apita o fim da partida há choro de tristeza para todos os gostos.

Obviamente, diante de uma derrota iminente, tem choro que chega antes. Alguns pelo imponderável, como na final de 1998, com Ronaldo fora da lista, depois dentro, depois irreconhecível, contra um Zidane impecável. Foi de chorar antes do fim. 

Existe também o choro ressecado, como naquele 7 a 1, em casa, em 2014. Ao final do jogo, quem tivesse vertido seu mar de incrédulas lágrimas no intervalo já estava com todas elas secas sobre as bochechas com o desfecho da tragédia. 

Muito famoso também é o choro da felicidade, aquele engasgado, como o do próprio Salviano, inesperado em 1970, assim como de seus filhos, em 1994. Mas choro diante de convocação, isso o velho torcedor nunca tinha visto.

O pequeno Ravi estava inconsolável. Como pudera Tite deixar de fora seu ídolo, o artilheiro dos jogos difíceis, das decisões, aquele que fez com que a alegria da conquista junto ao seu time fosse além dos estaduais e dos rivais que vivem de idas e vindas da Série B. 

— Vô, não é justo Gabigol fora da lista! Ele é matador, é muito melhor que esses daí, tirando Vini Jr. porque o senhor sabe, né? É cria nossa. — argumenta o menino, iniciante na vida de torcedor de mundiais, assim como colecionador de figurinhas de álbum da Copa de primeira viagem.

O avô sorri, achando bonitinho, e brevemente responde: — Pior foi Alex.

— Mas vô, veja bem, não tou querendo Gabigol no lugar de Pedro. Acho que dava pros dois ali, num dava não? — pergunta, querendo ouvir a aprovação sobre sua análise de treinador mirim da Seleção.

— Pior foi Alex — insistiu o avô.

— Eu acho até que o Gabigol está em melhor fase que o Neymar. Queria ver ele, Vini Jr e Pedro, só Flamengo no ataque, com Paquetá servindo. Eita! — Sonhou acordado o menino, mas logo despertou para a frase do avô: — E quem danado é Alex? — perguntou, achando que o avô viria com mais uma história de jogador lá da década de 1960.

— Alex, um dos melhores meias brasileiros de todos os tempos, voando em 2010, ficou de fora da seleção do Dunga, aquela dos sete volantes, mais Kaká bichado. Foi triste, meu filho. 

*Coluna publicada originalmente na edição impressa de 11 de novembro de 2022.

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