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Tabacaria

por publicado: 30/09/2022 00h00 última modificação: 24/11/2022 10h25

por Felipe Gesteira*

O movimento na tabacaria de Seu Rojas, no Centro da cidade de Córdoba, há uma semana não era o mesmo. Desde o título do seu Belgrano, com acesso histórico à primeira divisão do Campeonato Argentino, sua loja, que sempre fora ponto de encontro para lamúria dos torcedores tendo o velho Rojas como condutor maior das reclamações, agora vive em uma festa que parece não ter mais fim. Até quem nem é cliente resolve parar e entrar na roda de conversa, no sonho do que será a próxima temporada com os dois times da cidade podendo fazer frente a gigantes como River Plate e Boca. Alegria é tanta que contra os outros adversários, a rixa local com o Talleres é posta de lado, feito briga entre parente onde só quem é da família tem o direito de apontar qualquer defeito.

Com tantos torcedores no ponto de encontro para acender um cigarro e jogar conversa fora, Seu Rojas decidiu até variar nas mercadorias e pôs à venda chaveiros com os escudos dos times da cidade: Talleres e Belgrano. Além do tabaco, dos isqueiros, maçaricos, dichavadores e charutos das mais diversas marcas, apelar para os times foi a forma como o bom comerciante encontrou para arrebatar o bolso de quem não fuma e fica ali na sua calçada só ocupando espaço. 

Seu Rojas observa o movimento, se alegra com o Belgrano e acha graça dos jovens fazendo nada. — Na idade de vocês eu já trabalhava, num ficava de conversa fora na porta do comércio dos outros. — Resmunga, perguntando se vão comprar alguma coisa ou só vieram tomar o tempo dele. Ele veste o personagem ranzinza mas não esconde o sorriso de canto de boca toda vez que um novo torcedor do Belgrano aparece procurando pelo “famoso Senhor Rojas”. 

Na semana seguinte ao título, a movimentação de torcedores na cidade continuava a crescer. No entanto, não eram fãs do Belgrano ou do Talleres, mas torcedores brasileiros. Ninguém sabia explicar o que estava acontecendo. Uns diziam que haveria um jogo em campo neutro, uma final de Copa, mas para os moradores de Córdoba, pouco importava. 

Aquela avalanche de brasileiros mudou a rotina da cidade. Em bando, alegres, fazendo festa na expectativa de verem seu time também campeão ali em Córdoba. Tudo isso era motivo para a empatia de Seu Rojas, mas ele nem queria papo. 

Os novos amigos de Seu Rojas achavam que o abuso do bom comerciante para com os gringos era devido a algum resquício de bairrismo, ou mesmo em decorrência de qualquer rivalidade esportiva entre Brasil e Argentina. Ele retrucava com veemência!

— Pra quê rivalidade? Primeiro que o Belgrano não é rival do Flamengo, segundo que depois de Maradona, só Lionel. Não tenho nada contra nenhum deles. 

Porém, quanto mais se justificava, mais ficava evidente uma insatisfação incontida no rosto de Seu Rojas. 

Ao fim de mais um dia, sentado, acendendo seu cigarrinho de palha junto a um grupo de jovens que papeavam ali sobre futebol, Se Rojas desabafa:

— Eu num vejo problema que vocês venham passar o dia aqui na minha calçada pra não fazer nada. Num tem problema encher a cidade de brasileiro pra ver um jogo que ninguém nem sabe qual é. Agora esse bando de marmanjo vindo na minha tabacaria perguntar se eu vendo cigarro eletrônico, aí é demais!

*Coluna publicada originalmente na edição impressa de 30 de setembro de 2022.

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