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#104 Pequeno ensaio sobre a leitura

por publicado: 18/08/2021 08h00 última modificação: 17/08/2021 11h09
Divulgação Aplicativo '12min' envia lembretes diários para que o usuário experimente "microbooks" em formato de áudio.

Aplicativo '12min' envia lembretes diários para que o usuário experimente "microbooks" em formato de áudio.


Existe algo de diferente na leitura. Ela é uma experiência, geralmente a longo prazo, que destrava memórias e cria novas; que te leva para lugares interiores que você talvez nunca tenha imaginado explorar. Calma, não é romantização descabida: isso acontece mesmo com leituras que nos fazem querer perfurar os próprios olhos. Mas, ah, como eu sinto tanta falta de ler.

Hora da confissão: o meu famoso hábito por leitura se esvaiu. Virou descostume. Às vezes até desconforto. Por mais aprazível que esteja a leitura, há meses não consigo deter minha atenção para mais do que 20 ou 30 minutos de uma leitura eventual. Tentei pelas manhãs, durante as tarde ou ainda as noites. Me vem o sono, me vem o cansaço, me vem os mil pensamentos de afazeres na lista da semana. 

Passaram-se quase 20 meses desde o início da pandemia em nosso contexto e meu saldo de livros cabe em uma mão. Outros cinco -- três livros que não saem da cabeceira e mais dois no kindle -- comecei e não concluí. Entro numa espiral de auto vergonha: “por que não mais consigo ler?” ou “não abro o livro porque sei que não mais consigo ler”. 

Dentro de casa, não faltam estímulos para leitura. Meu marido e minha enteada engolem livros semanalmente como eu engulo uma cesta de pães de queijo. Em nosso grupo de WhatsApp surgido numa tentativa de clube do livro da família, irmã, pai e irmão trocam dicas e títulos constantemente. O que me falta?

Não faz muitos dias que voltei para o trabalho presencial e, durante este tempo, minha vida vem se reorganizando como blocos de Tetris: alguns se encaixam perfeitamente, outros sobram; assim, aos poucos, consigo me afastar do teto mesmo com a grande quantidade de peças caindo. Mal sabia eu que um único pedaço me faltava, a parte que me desafogaria do peso na consciência e falta de disciplina para com a leitura, uma atividade que tanto senti prazer. A peça foi justamente aquele bendito retângulo de blocos que você encaixa no canto da tela, matando quatro linhas de uma vez: os audiolivros. 

A ideia veio do meu companheiro, acostumado com curtas viagens diárias até o trabalho em outro município. Cansado de podcasts, Matheus passou a alternar o caminho de ida e volta entre músicas, o puro silêncio ou audiolivros. Meus olhos brilharam com a ideia. Já no primeiro dia, catei a página que havia parado em ‘Cem Anos de Solidão’, de Gabriel García Marquéz, pesquisei no YouTube pelo título e logo encontrei dois vídeos, de 13 horas de duração no total, com a leitura da obra-prima de Gabo. Busquei o ponto exato (mais ou menos quatro horas já haviam sido lidas) e, neste momento, faltam apenas três horas para concluir esse que já é, sem dúvidas, um de meus livros preferidos. 

O exercício de ouvir enquanto dirijo tem sido meu momento de abstração de tudo que não seja a narrativa e a estrada. Me sinto mais leve e não mais percebo a leitura enquanto obrigação, como passei a sentir quando mais precisei ler. E eu já tive bastante preconceito com esse tipo de mídia, aquele mesmo julgamento que muitos tiveram quando surgiram os e-books. Enquanto, de fato, os audiolivros não permitem tanta expansão da criatividade uma vez que o tom do é imposto pelo narrador em áudio, e se perde o artifício visual da grafia das palavras, a mídia possibilita mais foco e atenção para quem vem apresentando dificuldade na leitura. E, convenhamos, antes da escrita, as histórias não eram repassadas pela tradição oral?

Pelo visto, não estou nem um pouco sozinha neste resgate de oralidade (eita, gostasse?). No dia 01 de julho, o Sindicato Nacional dos Editores de Livros (Snel) e a Câmara Brasileira do Livro (CBL) publicou uma pesquisa sobre a presença digital dos livros na vida dos brasileiros no ano de 2020. De acordo com o estudo, o faturamento das editoras com e-books e audiolivros cresceu 36% no País em relação ao ano de 2019. O levantamento apontou ainda que o preço médio destas categorias caiu 25%. Ah, e só a custo de registro, mais gente vem escrevendo também: houve uma alta de 16% de novos títulos em circulação no mercado nacional. 

Vale ressaltar que nem tudo que está no YouTube é narrado por um profissional ou ainda alguém que tenha a dicção e interpretação minimamente boas. Por lá, é possível encontrar obras em português dos mais variados gêneros. Mas você também pode adquirir audiolivros em plataformas como a Play Store, do Android, e o Kindle, da Amazon, e em sites como Tocalivros, StoryTel e LibriVox, todos estes com opções gratuitas para download. Muita gente que consome a mídia também indica o aplicativo 12min, ele envia lembretes diários para que o usuário experimente 12 minutos de leitura de alguma obra, num formato resumido batizado de "microbook". É uma ótima ideia para relembrar alguma obra que você leu há anos ou para revisar um título antes de continuar alguma série de livros.

Já penso na ida ao trabalho ansiosa para o desenrolar da história da gigante família Buendía e o destino da cidade de Macondo. Era assim que se sentia a geração das radionovelas? Agora com o freio de mão para baixo e num ritmo constante, sigo minha audioleitura numa paz só. Velhos hábitos resgatados, novos formatos encontrados. 

*Coluna publicada originalmente na edição impressa de 18 de agosto de 2021. 

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