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#110 Duas versões de um mesmo crime

por publicado: 29/09/2021 08h00 última modificação: 29/09/2021 10h08
Divulgação Carla Diaz (E) e Leonardo Bittencourt (D) vivem o casal Suzane von Richthofen e Daniel Cravinhos

Carla Diaz (E) e Leonardo Bittencourt (D) vivem o casal Suzane von Richthofen e Daniel Cravinhos

por Gi Ismael

Um prazer nem tão oculto que tenho é o gosto por séries e filmes (documentários ou ficcionais) baseados em crimes reais. Sei que não sou a única nesse barco e, aparentemente, estamos na década das obras brasileiras de ‘true crime’. Podcasts como Doutor Morte, A Praia dos Ossos e Café com Crime juntam milhares de ouvintes; séries como ‘Bandidos na TV’ e ‘O Caso Evandro’ fazem sucesso nas plataformas de streaming. Crimes chocantes costumam atiçar a curiosidade do público – sabemos do sucesso de Linha Direta nos anos 2000, não é?

Se você não sabe bem do que estou falando, eu explico: durante anos, a Rede Globo transmitiu o programa nas noites de quinta-feira apresentado brevemente por Marcelo Rezende e, em seguida, por Domingos Meirelles. Semanalmente, os episódios eram dedicados a reconstituir crimes que aconteceram no Brasil, recriando casos famosos como A Fera da Penha, O Bandido da Luz Vermelha, Zuzu Angel e outros crimes cujos principais suspeitos estavam foragidos. Baseado em depoimentos, o programa contava duas ou três versões existentes do mesmo crime e números de telefone para que fossem feitas denúncias sobre o paradeiro dos foragidos.

Misturando um pouco dessa curiosidade mórbida comum a quase todos nós e a incerteza dos fatos, a Amazon Prime Video lançou dois filmes da mesma história contada por perspectivas diferentes: ‘A Menina que Matou os Pais’ e ‘O Menino que Matou Meus Pais’. Os longas-metragens de ficção caminham pela linha do tempo do relacionamento de Suzane von Richthofen e Daniel Cravinhos até o fatídico dia em que assassinaram o casal Manfred e Marísia von Richthofen, pais de Suzane. Provavelmente, nem mesmo que os mortos falassem nós teríamos uma resposta certa para o que aconteceu desde o planejamento à execução do crime. Suzane foi influenciada pelo namorado ou vice-versa? O motivo foi por dinheiro ou por vingança? 

Assisti primeiro ‘O Menino que Matou Meus Pais’, o filme narrado sob a perspectiva de Suzane (Carla Diaz), baseado no depoimento dado por ela no julgamento no ano de 2006. Emendei o outro título logo em seguida (inclusive, acho que a obra pode ser melhor aproveitada dessa forma), onde Daniel (Leonardo Bittencourt) é quem senta de frente ao juiz. 

Os dois filmes contam com trechos onde as atuações são bastante caricatas e forçadas, como a cena onde Suzane está se drogando na balada, mas é notável que os protagonistas fizeram um bom trabalho ao retratar duas facetas diferentes de uma mesma pessoa. Porém com uma história tão repleta de divergências e extremismos narrativos, o sentimento que fica é que foi uma oportunidade perdida de fazer um filme com o impacto e a surpresa que tiveram ‘Garota Exemplar’ (David Fincher, 2014) ou ‘As Duas Faces de um Crime’ (Gregory Hoblit, 1996).

É perceptível que houve um esforço maior em ‘O Menino que Matou Meus Pais’ para contar detalhadamente alguns acontecimentos, deixando a história mais redonda e entregando um roteiro com mais “respiros”. A impressão que tive é que ‘A Menina que Matou os Pais’, claro, deixa de lado algumas cenas para que o filme não se torne repetitivo, mas em contrapartida não preenche outros espaços e acaba parecendo apressado demais. A casadinha de filmes vale a pipoca, mas provavelmente um só longa com duas horas e meia de duração daria conta do recado. 

*Coluna publicada originalmente na edição impressa de 29 de setembro de 2021.

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