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#120 'Pacificador' traz um adorável idiota para as telinhas

por publicado: 19/01/2022 08h00 última modificação: 14/02/2022 11h20

por Gi Ismael*


A DC Comics deu um tiro certíssimo quando apostou no cineasta James Gunn para comandar as novas produções audiovisuais do estúdio. Gunn, que já tinha mostrado ao que veio quando dirigiu os blockbusters Guardiões da Galáxia e Guardiões da Galáxia Vol. 2 da rival Marvel Comics, tem talento para transformar filmes de super-heróis em comédias escrachadas, recheadas de piadas metalinguísticas e personagens propositalmente idiotas. Foi exatamente isso que aconteceu em O Esquadrão Suicida (2021) e, mais recentemente, na série Pacificador, ambas produções da HBO Max.

Antes de falar sobre a nova série para adultos infantis (depois eu explico), vamos relembrar a trama de O Esquadrão Suicida, filme que antecede os acontecimentos de Pacificador. No longa, seis prisioneiros são retirados do sistema de segurança máxima Belle Reve para servirem aos Estados Unidos em uma missão na América do Sul. A dona do grande botão vermelho que pode matar qualquer desertor da Força Tarefa X é a durona Amanda Waller, interpretada por ninguém menos que Viola Davis. Com apenas Coronel Rick Flagg (Joel Kinnaman) e a favorita Arlequina (Margot Robbie) como figurinhas repetidas no time — esta última estrelando pela terceira vez em uma produção da DC —, o novo Esquadrão Suicida é formado ainda por Sanguinário (Idris Elba), Tubarão-Rei (Sylvester Stallone), Polka Dot Man (David Dastmalchian), Caça-Rato 2 (Daniela Melchior) e Pacificador (John Cena), a grande estrela do spin-off da HBO Max. 

Para a felicidade da DC, o longa foi um sucesso. Ao contrário do Esquadrão Suicida de 2016, que pontuou apenas 42/100 no Rotten Tomatoes, o novo capítulo atingiu mais que o dobro em avaliações positivas no mesmo site. Pois bem, a figura do musculoso, burro e desengonçado Christopher Smith devolveu a John Cena um destaque que não tinha desde… Bem, nunca. Cena é conhecido por ser um ator medíocre e é envolvido num estilo de luta bem canastrão: wrestling, aquelas lutas livres bem teatrais (mas que ninguém pode falar que são encenadas). Ele é lutador profissional de WWE e jamais saiu dos rinques, atuando como uma figura central da empresa, sendo porta-voz e protagonista desde 2005. Até quando foi perseguir a carreira de rapper, John Cena não foi levado a sério pelo público, portanto quando anunciaram que aquele cara seria um novo super-herói da DC, sobrancelhas arquearam e expectativas foram postas à mesa. E ele embarcou com tudo no personagem, que vestiu perfeitamente como um capacete cromado.

(Atenção, spoilers de O Esquadrão Suicida a seguir!) A série acontece imediatamente após o final do filme, quando o Pacificador mata o colega Rick Flagg a fim de concluir a missão de Amanda Waller sem se importar com os princípios éticos e morais em cheque. Depois de levar um tiro e ter sido soterrado por um prédio, ele recebe alta do hospital e é mais uma vez escalado pelo governo; desta vez, Chris Smith deve assassinar todos os alvos da Missão Borboleta. O que vimos a partir disso, é uma hilária salada do mais brega do rock anos 80, humor adolescente em puberdade, símbolos patriotas americanos, muitos palavrões e uma das melhores aberturas de um programa de TV no melhor estilo “TikTok encontra o Domingão do Faustão”. 

Quando mostra as origens do protagonista, Pacificador não quer tornar a figura de Chris Smith uma vítima da sociedade. O programa só quer mostrar um cara completamente bobalhão e ingênuo, e de bobalhão e ingênuo James Gunn entende. Ele próprio define o personagem como um “Capitão América idiota”. Mesmo quando mostra que o pai dele é um nazista-negacionista-racista que lhe nega amor, a série ri da cara do protagonista quando ele chora sozinho em seu quarto ouvindo um disco de glam-rock. Se a figura de Christopher não fosse claramente alguém disposto a aprender com seus erros, ele dificilmente seria um personagem tão “gostável”. Ele é tipo o Michael Scott dos quadrinhos.

Apesar de voltada para o público adulto, a série não traz a intensidade de algumas discussões como vimos na excelente The Boys. Inclusive, me deparei com um meme um dia desses que trazia um boneco reflexivo e logo acima a frase: “estou vivendo ou apenas frescando?”. Eu acho que esse bonequinho era James Gunn e, se for para tirar onda das crias americanos do “MAGA”, eu tô dentro. 

*Coluna publicada originalmente na edição impressa de 19 de janeiro de 2022.

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