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#59 ‘Black is King’: protagonismo negro em escala global

por publicado: 11/08/2020 12h03 última modificação: 03/11/2020 11h25
Crédito: Reprodução Álbum visual é releitura artística, subjetiva e poderosa da animação ‘O Rei Leão’

Álbum visual é releitura artística, subjetiva e poderosa da animação ‘O Rei Leão’

 

Contei os dias para a estreia de Black Is King, novo álbum visual de Beyoncé lançado pela Disney+ no último dia 31 de julho. Abri os olhos e era agosto. Comi apressada o café da manhã numa falsa ilusão de que, dessa forma, eu estaria deglutindo também as horas até aquele momento em que estaria livre para assistir o filme. 

Depois do almoço, fiz todo um ritual. Peguei o melhor lençol da casa -- aquele fresquinho mas que cobre bem o frio nos pés, sabe? --, liguei o ventilador para deixar o ar circulando, ajustei som da TV e a posição da tela, coloquei o copinho com água perto de mim. Os próximos 85 minutos foram de hipnose, quase um transe que só uma verdadeira obra de arte é capaz de causar nos corações mais sensíveis. 

Em 2019, a Disney lançou o remake de O Rei Leão, uma versão carregada de animações computadorizadas  como a produtora tem feito com clássicos infantis ao longo dos últimos anos (Aladdin, Dumbo, Mogli). O elenco do filme, majoritariamente negro, foi composto por fortes nomes da indústria do entretenimento como Donald Glover na voz de Simba e Beyoncé como Nala. Black is King trata-se de uma releitura artística, subjetiva e poderosa da animação (impecável) de 1993, apresentando Simba como um garoto negro que sente a necessidade de ir em busca de suas origens no continente africano. Nala, que pouco fala no longa em animação, é personagem central nesta nova interpretação do clássico.

O outro produto multimídia do pack “O Rei Leão de 2019” é o disco The Lion King: The Gift, a parte “álbum” do termo “álbum visual”. Enquanto senti falta de parcerias de Beyoncé com outras mulheres cantoras e rappers em Lemonade (2018), fiquei legitimamente emocionada em conhecer tantas artistas novas nesse disco que faz um intercâmbio entre nomes dos Estados Unidos e de países como Camarões (Salatiel), Nigéria (Burna Boy e Yemi Alade), África do Sul (Busiswa) e Gana (Shatta Wale). Músicas como ‘Bigger’ e ‘Brown Skin Girl’ são, por si só, belíssimas canções de empoderamento e ancestralidade.

O título é quem dá o timbre de um filme. “Preto é rei”. A obra de referências pan-africanas enaltece a ancestralidade, objetiva devolver à população negra o direito de ser realeza no sentido literal e figurativo da palavra. É um filme dedicado a Sir Carter, filho de Beyoncé e Jay-Z, e, assim como a mega produção dos Estúdios Marvel Pantera Negra (2018), abre portas para que muitos outros garotos e garotas negras se vejam representados e liderem uma história produzida pelo maior estúdio da indústria do entretenimento, a Walt Disney Pictures. 

Por mais que isso dê brecha para todas as discussões que envolvem pautas sociais quando levantadas pelo capitalismo e pela bilionária indústria do entretenimento norte-americana, debates como esses são secundários e não deveriam ofuscar a importância de um produto que questiona tudo de racista que nos foi ensinado sobre o povo negro ao longo de séculos pela religião, ciência e academia (já diria Baco Exu do Blues: “O samba é blues, o rock é blues, o jazz é blues/O funk é blues, o soul é blues, eu sou Exu do Blues/Tudo que quando era preto era do demônio/E depois virou branco e foi aceito, eu vou chamar de blues/É isso, entenda/Jesus é blues”) e que fantasia -- possibilitando assim -- um mundo no melhor estilo afrofuturista. Antes de qualquer análise, é necessário entender que Black is King é sobre o sentimento que o filme causa no público-alvo através de uma impecável e estonteante produção audiovisual.

Beyoncé poderia (do verbo poder, se ela quisesse) continuar sua carreira como estrela pop e manter-se completamente neutra, observando de cima do muro questões políticas e sociais como muitas fazem. Entretanto, são mais de 20 anos de carreira para que, apenas nos últimos seis, ela pudesse finalmente agir e criar de forma mais enfática obras que unem o pop à política. Em 2014, lançou o álbum homônimo que apresentava a mulher como sujeito e não como objeto sexual de uma relação, declarando-se ainda feminista ao usar um trecho da palestra "Sejamos todas feministas", da autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, na faixa 'Flawless'.

Dois anos depois, época também em que fez doações milionárias ao movimento Black Lives Matter em nome do Tidal (serviço de streaming propriedade dela e de Jay-Z), foi a vez de Lemonade tomar conta; um disco que virou o holofote para as vivências de muitas famílias pretas norte-americanas com papéis culturais e dinâmicas familiares que lhes são impostas, além de criticar a brutalidade policial contra esta população. Em 2019, foi através de Homecoming que acrescentou-se a isso a importância da ocupação de espaços acadêmicos pela população negra. Para completar essa quarteto audiovisual, veio agora Black is King. Estamos falando aqui de todas essas pautas trazidas numa escala global por uma das maiores -- se não a maior -- divas do entretenimento. Estou falando aqui das maiores tacadas, excluindo várias outras ações práticas, como campanhas que frisam a importância do voto, que (literalmente) não cabem aqui. 

Agora pense: teria Beyoncé, uma mulher negra, vinda do Texas, filha de pais de classe média-baixa dos Estados Unidos, alcançado o status que tem hoje em dia se tivesse trazido à tona estas pautas políticas desde o início? Alguém teria dado ouvidos a ela? Espaço? Dinheiro? O quanto Beyoncé ainda precisa ser para ser suficiente aos olhos da patrulha de ativismo alheio?

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Pouco antes de escrever esse texto, me deparei com a polêmica coluna da antropóloga Lilia Schwarcz na Folha de São Paulo e, por mais que eu tenha muito a dizer sobre, não faz sentido -- e nem quero -- que isso (ou ela) seja protagonista desta resenha. Com isso em mente, poucas palavras sobre o assunto: no jornalismo, o título vem como uma chamada, um aviso de poucos caracteres sobre o que o leitor vai consumir no texto. O subtítulo, que não é obrigatório, vem logo depois e traz uma frase que complementa o título e apresenta mais a fundo a ideia central do artigo. Quando Lilia Schwarcz escreve uma coluna cujo o título é “Filme de Beyoncé erra ao glamourizar negritude com estampa de oncinha”, seguido do subtítulo “diva pop precisa entender que a luta antirracista não se faz só com pompa, artifício hollywoodiano, brilho e cristal”, tudo o que ela diz em seguida vai ser digerido com a primeira informação que ela deu. Informação esta que mostra uma antropóloga branca de sobrenome difícil querendo ensinar para uma mulher negra como não se comportar diante do ativismo e da negritude, achando que ela, a mulher negra, poderia fazer mais. De nada adianta escrever parágrafos para enaltecer uma obra se o título, subtítulo e arremate expõem mais os erros do que as virtudes do objeto. Tudo o que você escreveu passa a ser encheção de linguiça para o que realmente você queria dizer desde o começo. 


 *publicado originalmente na edição impressa de 05 de agosto de 2020.

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