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#88 Joguinho de estimação

por publicado: 21/04/2021 08h00 última modificação: 21/04/2021 08h50
Divulgação Apesar de polêmicas envolvendo propaganda enganosa, o viciante jogo para celular ‘Homescapes’ é acessado por 30 milhões de usuários diariamente

Apesar de polêmicas envolvendo propaganda enganosa, o viciante jogo para celular ‘Homescapes’ é acessado por 30 milhões de usuários diariamente


Você tem um joguinho casual de coração? Aquele de celular que, vez ou outra, você abre para relaxar um pouco? Pois bem, o meu da vez é Homescapes. E posso dizer: fui totalmente comprada pela incessante publicidade dele em outros jogos. 

Faz tempo que os games casuais conquistam pessoas ao redor do mundo (um salve para o clássico Pong, do Atari) e eu tiro o exemplo lá de casa mesmo. Na época do Mega Drive, minha mãe conta que era absolutamente louca por Columns, uma mistura de Tetris com Bejeweled. Era uma escapatória perfeita dos três (lindos) filhos pequenos. Já o meu pai preferia jogos de corrida, principalmente os simuladores de Fórmula 1. E não é que eles sejam gamers. Mas eles sempre têm um joguinho de estimação. 

Quando os celulares começaram a vir com jogos de fábrica, papai não largava o Brick Breaker. E por “não largava”, eu quero dizer literalmente horas, assim que chegava do trabalho, usando pacientemente aquele scroll do teclado minúsculo do Blackberry. Quando compraram um iPad, seu Giovanni era acordado de madrugada por cotoveladas eventuais da minha mãe enquanto ela jogava Angry Birds -- todas as edições. Ela, inclusive, concluiu um feito: chegou no fim da linha de Sugar Rush após alcançar a fase três mil, oitocentos e alguma coisa e se igualou ao passo dos desenvolvedores. Agora ela só espera as atualizações com fases novas, uma por uma. Dona Ilma conta que são quatro anos jogando -- e sem gastar um tostão. 

Liguei agora para perguntar para os dois o que eles têm jogado. Meu pai, que já era minhoca de livro, durante a pandemia virou ainda mais e deixou de lado os joguinhos. Já minha mãe começou a jogar Homescapes por indicação minha: "Ah, minha filha, já reformei quarto, já reformei sala… daqui a pouco chego na cozinha!", contou, rindo. 

Eu estava em busca de um joguinho assim, para chamar de meu, há um tempo. Voltei para o bom e velho Sudoku mas precisava de algo mais. Baixei então um bem genérico chamado Pizza. Sério. Só isso. O jogo era legalzinho, o objetivo era atender clientes e servir pizzas de diferentes sabores. Design lindo, jogabilidade okay, propagandas insuportáveis, insistentes e massivas. O tempo todo! Por dias, não dei o braço a torcer. Ignorei o CoinMaster e suas celebridades, mas não aguentei a curiosidade e baixei Homescapes. Para a minha surpresa, o jogo não tinha nada a ver com a propaganda. Enquanto a publicidade mostrava um jogo de lógica e quebra-cabeças, me surpreendi quando fiz o download e percebi que aquilo da propaganda é apenas um minigame que aparece de vez em nunca no aplicativo.

Acredito não ser exagero chamar de propaganda enganosa (inclusive, em 2020 órgãos reguladores do Reino Unido proibiram vários anúncios do game por esse motivo), mas dessa vez eu disse “capitalismo, me possua!” porque o produto entregue foi bem legal. Desenvolvido pela russa Playrix Holding, Homescapes não tem nada de revolucionário em sua jogabilidade. Na verdade, o jogo é uma mistura de várias fórmulas do sucesso desses games casuais: existe o esforço (as fases de combinação de joias no estilo Candy Crush, modo conhecido como “match-3”) e a recompensa (estrelas e moedas que você usa para reformar cômodos de uma mansão). Ah, sobre o enredo: nós jogamos com o mordomo Austin e temos a missão de dar um tapa na casa onde os pais dele moram, cômodo por cômodo. Além das ligas com amigos e os eventos que dão mais bônus, Homescapes tem um diferencial evidente: a falta das chatas propagandas. O motivo? Uma cifra de mais de U$1 bilhão, de acordo com estudos da Newzoo. Isso mesmo. 

O jogo, que é gratuito e foi lançado em 2017 pouco tempo depois do estrondoso Gardenscapes, possui mais de 30 milhões de usuários diários ao redor do mundo, a mesma pesquisa revelou. Com a pandemia, a receita do game dobrou. Como um jogo gratuito alcança esse lucro? Simples: compras dentro do app e poucos usuários feito a minha mãe, ou seja, que não desembolsam um centavo. Em 2019, os desenvolvedores do jogo afirmaram que grande parte dos jogadores gastava 35 dólares por mês com compras in-app. Aí mora o perigo: você pode gastar de R$ 4,90 a R$ 800 de uma só vez. A facilidade da compra em um clique pode ser motivo de dívida para muita gente. De grão em grão… vocês já sabem.

Sou totalmente pró-games. É importante valorizar o mercado independente de jogos, principalmente o local. Mas atenção com a indústria bilionária, ela literalmente não precisa de você para sobreviver e sobreviver é algo que a gente precisa fazer com nosso suado dinheiro. É necessário ter autocontrole nesse momento e não se deixar vencer pelas promessas dos joguinhos inocentes. É sobre ser mão-de-vaca, e está tudo bem. 

*Coluna publicada originalmente na edição impressa de 21 de abril de 2021.
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