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#111 'Amor no Espectro': pelo direito universal de amar

por publicado: 06/10/2021 08h00 última modificação: 05/10/2021 11h36

por Gi Ismael

Programas de namoro nunca saíram de moda. Quem não acompanhou um ‘Vai Dar Namoro’, ‘Beija Sapo’ ou ‘Namoro na TV’ da vida, que atire a primeira pedra. Ei, cuidado com a minha cabeça!

Claro que esse prazer culposo não saiu da cola das plataformas de streaming quando elas se popularizaram, principalmente a Netflix. Num piscar de olhos, nos depararmos com opções de séries do gênero “reality para formar casais”, das mais bizarras (claro que estou falando de ‘Sexy Beasts: Amor Desmascarado’) às mais divertidas (‘Are You The One?’ e ‘Casamento às Cegas’, adoro). Mas diferente dessas produções que enchem os participantes de bebidas alcóolicas e vangloriam as famosas tretas e baixarias eventuais, existe um precioso título que merece, de fato, a audiência de todo mundo: ‘Amor no Espectro’.

Com duas temporadas lançadas entre 2019 e 2021, a série documental (nome chique para ‘reality’) é situada na Austrália e acompanha a vida de pessoas diagnosticadas com transtorno do espectro autista (TEA) e que estão em busca do democrático ato de amar. Quase todos os participantes, homens e mulheres de diferentes idades, passaram ali, na frente das câmeras, por suas primeiras experiências de encontros românticos, primeiros beijos e seguradas de mãos.

‘Amor no Espectro’ tem uma abordagem muito genuína e respeitosa para com seus protagonistas. Deixando o capacitismo de lado, os episódios documentam o cotidiano autônomo desses jovens, sem provocar situações incômodas a fim de um take dramático. Além de nos mostrar que a mente humana não é preto ou branco e que o autismo possui mais nuances do que se pode imaginar, a série aborda também o público LGBTQIA+ que está inserido no espectro, com ao menos três personagens que se identificam como bissexuais.

Na segunda temporada, lançada no final de setembro, ‘Amor no Espectro’ volta a acompanhar Michael, um elegante, queridíssimo e bem-humorado jovem, Mark, um vívido homem que busca uma companheira com quem possa dividir seu amor por dinossauros, e o casal Sharnae e Jimmy, dois pombinhos que irão se casar em breve. Outras novas personagens são introduzidas na trama, como a animada e brilhante Teo e o carinhoso Ronan. 

Além da equipe de filmagens, quem acompanha a rotina desses jovens é Jodi Rodgers, uma conselheira e terapeuta especialista em introduzir pessoas no espectro autista a princípios básicos de relacionamentos, romance e sexo. Apesar dos desafios sociais enfrentados pela maioria destas pessoas, Jodi as faz entender que, se é algo que buscam, é possível sim encontrar uma metade para suas vidas. Justamente por essa abordagem, a série agrada tanto neurodivergentes como neurotípicos. A única crítica mais específica que li de pessoas com TEA é que a série não deveria arranjar unicamente encontros entre duas pessoas autistas, uma vez que é totalmente possível construir relacionamentos com pessoas de dentro e de fora do transtorno.

Mas o que é esse tal amor que aparentemente todo mundo decide desbravar como numa jornada? Para alguns personagens da série, o amor é aquilo que assistem em filmes e séries; o lado romântico eternizado nas ficções. Para outros, o amor é manifestado através de um par que, mais do que namorado(a), será seu melhor amigo(a) para toda a vida. Independente da definição, um adendo parece unânime: “meu verdadeiro amor será alguém que gostará de mim por quem eu sou, incondicionalmente”. Não é o que todos nós merecemos, afinal?

Com um desfecho emocionante na segunda temporada, ‘Amor no Espectro’ nos ensina a olhar para o mundo com olhos mais apaixonados e empáticos, nos restaurando, com doses cavalares, a escassa fé na humanidade. 

*Coluna publicada originalmente na edição impressa de 06 de outubro de 2021.

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