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#58 Boca a Boca esconde crítica social em trama moralista

por publicado: 29/07/2020 00h01 última modificação: 03/11/2020 11h25

 

Uma nova produção brasileira da Netflix tem dado o que falar e há alguns dias percorre a web como o próprio nome sugere, de Boca a Boca. Criada por Esmir Filho (Alguma Coisa Assim, 2007, Os Famosos e os Duendes da Morte, 2009), a série de seis episódios percorre terrenos de ficção científica, mistério e drama pincelados com referências estéticas neo-futuristas e muita cor neon. O elenco diverso junta novos nomes como a jovem estreante Iza Moreira, protagonista da série, a jovens veteranos como Michel Joelsas, de O Ano em que Meus Pais Sairam de Casa, e fortes artistas brasileiros de longa estrada, como Grace Passô, Bruno Garcia, Denise Fraga e Thomas Aquino.

Em Boca a Boca, após uma festa clandestina regada a drogas e "pegações", os alunos da Escola Modelo amanhecem com a notícia de que uma das colegas estava doente, apresentando os olhos desbotados, veias salientes percorrendo o pescoço e a boca manchada de uma cor escura. Aos poucos, vários dos jovens presentes na festa começam apresentar os mesmos sintomas e tornam-se quase zumbis, incapazes de ter sentimentos e mostrando-se completamente catatônicos. 

Deu para notar que epidemia tratada na série muito lembra o nosso atual momento, com negacionistas, suposições diversas, remédios milagrosos, "novos normais" e, claro, notícias falsas. O paralelo, entretanto, é uma triste coincidência: a produção foi idealizada em 2018, baseada em um curta do próprio Esmir de 2007 (Saliva), e há dois anos começavam os primeiros esboços e projetos da série. 

A ficção científica, porém, não é a trama moralista que aparenta. Ambientada numa cidade fictícia ironicamente chamada Progresso, Boca a Boca escancara temas como homofobia, racismo, luta de classes e o conservadorismo, juntando muitos "Brasis" em uma mesma narrativa. 

Por falar em "Brasis", a trilha sonora original de Gui Amabis (compositor na série Psi e membro da equipe técnica musical de filmes como Senhor das Armas e Colateral) usa e abusa dos sintetizadores, instrumentos de cordas e até berrantes. Músicas de Letrux, Baco Exu do Blues e Trupe do Chá de Boldo são algumas presentes em Boca a Boca, que também tem uma excelente seleção musical internacional que inclui grupos como The Knife e Kindest Cuts. 

Boca a Boca perde o ritmo em alguns episódios ao ponto de ficar monótona, um pouco entediante. Mas a série logo recupera o passo e continua construindo o enredo não tão complexo assim, mas extremamente envolvente e criativo. Em apenas seis episódios a série mostrou a que veio e me deixou com água na boca para uma segunda temporada.

*publicado originalmente na edição impressade 29 de julho de 2020.

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