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#93 'O Nó do Diabo', longa de terror da PB, estreia no Prime Video

por publicado: 26/05/2021 08h00 última modificação: 25/05/2021 12h14

 
Streaming é lugar de privilégio. Sendo uma das principais vitrines de séries e filmes na última década, entrar no limitado catálogo de serviços como Netflix e Globoplay é um feito e tanto. E que felicidade foi ver que, no último dia 20 de maio, teve filme paraibano estreando em uma das mais importantes plataformas streamings, a Amazon Prime Video. O longa-metragem de terror O Nó do Diabo (2018), produzido pela Vermelho Profundo, tem direção de Ramon Porto Mota, Gabriel Martins, Ian Abé e Jhésus Tribuzi, e apresenta cinco contos que abordam escravidão e o reflexo da barbárie ao longo das décadas.

A produção, dividida em cinco partes, é situada, respectivamente, nos anos de 2018, 1987, 1921, 1871 e 1818. O primeiro ato, repleto de camadas, escancara a desigualdade social, o abuso de poder, a mídia propagandista conservadora e o racismo. O conto é centrado em um ex-policial militar (interpretado por Tavinho Teixeira) que foi contratado para fazer a segurança do antigo engenho da família Vieira  ̶  a todo custo. Intermediado por um homem próximo da família (Fernando Teixeira), ele tem o objetivo de impedir que o bairro da periferia alcance a propriedade que está completamente abandonada. Acertando em cheio o tom da direção e construindo um sufocante terror psicológico, o conto abre alas para o que está por vir. 

O ano é 1987 mas poderia ser 2021. Foi difícil não assimilar a história do casal Sebastião (Alexandre de Sena) e Joana (Clebia de Sousa) com as notícias que nos assombraram ano passado, quando Madalena Gordiano, 47, uma mulher negra, conseguiu escapar da residência dos Milagres Rigueira em Minas Gerais após 38 anos vivendo em regime análogo à escravidão. Madalena é apenas uma delas. Desde 1999, estima-se que 55 mil pessoas foram resgatadas em situação de escravidão no Brasil, de acordo com uma reportagem no Fantástico exibida em dezembro de 2020. O Brasil inteiro está ali, nos corredores assombrados do fictício Engenho Vieira.

A próxima história que conhecemos é das gêmeas Cissa (Miuly Felipe da Silva) e Maria (Yurie Felipe da Silva), que em 1921 passam pelos mesmos abusos de suas antepassadas décadas antes. Os atores Everaldo Pontes e Arthur Canavarro também estrelam o capítulo que aborda a violência de gênero sofrida pelas mulheres negras. O sobrenatural, que dá as caras em outros contos, também aparece neste. 

Tanto a parte IV quanto a parte V, dirigidas respectivamente por Jhésus e Ramon, falam sobre fuga, perseguição e refúgios. Sufocantes, eles tratam a hereditariedade como força propulsora. Escurinho, Zezé Motta e Isabél Zuaa são alguns dos nomes presentes nos impactantes atos finais. 

Tratar do racismo no meio audiovisual é terreno particularmente sensível uma vez que o tema, como sabemos e vivemos, respinga e jorram sangue de mais da metade da nossa população até os dias de hoje. Enquanto a polêmica série Them, também disponível no Prime Video, foi pelo caminho mais fácil e por vezes agarrando-se ao "blaxploitation" para apontar o racismo em suas atitudes mais nítidas, O Nó do Diabo alcança também o oceano turvo do racismo estrutural e provoca a reflexão para além daquilo que é o preconceito óbvio. 

É um infortúnio, mas o gênero do terror parece-me o único que podia se encaixar nessas histórias. Não deve ter sido fácil para Fernando Teixeira, uma das mais gentis pessoas com quem tive o prazer de conversar e entrevistar, dar vida a um personagem tão pútrido. Muito menos para a equipe e o elenco, majoritariamente negro, gerir e dar à luz todas as histórias que vimos em O Nó do Diabo

O longa, que conta com atuações, roteiro e direção de tirar o fôlego, foi filmado no Engenho Corredor, localizado no município de Pilar (PB), famoso berço do autor José Lins do Rego e cenário da clássica obra 'Menino de Engenho'. Em O Nó do Diabo, o Engenho também aparece enquanto personagem. Ele edifica e concretiza o racismo, a crueldade em seus estágios mais táteis, os preconceitos de raça, gênero e credo. Assim como a mancha queimada na parede do segundo conto, as cicatrizes da escravidão, décadas depois, continuam lá. 

 

*Coluna publicada originalmente em 26 de maio de 2021.

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