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#66 Paris, interrompida

por publicado: 23/09/2020 10h55 última modificação: 03/11/2020 11h25
Christina House/Los Angeles Times Produção original do Youtube, ‘A verdadeira história de Paris Hilton’ mostra uma das primeiras celebridades que ganhou notoriedade por ser simplesmente famosa

Produção original do Youtube, ‘A verdadeira história de Paris Hilton’ mostra uma das primeiras celebridades que ganhou notoriedade por ser simplesmente famosa


Já faz algum tempo que o YouTube produz séries e filmes originais da plataforma. Foi lá que surgiu, por exemplo,
Cobra Kai, série spin-off do universo Karatê Kid com o elenco original do filme e que chegou recentemente à Netflix. Mas talvez um dos maiores sucessos de público da estrondosa plataforma de vídeos são os documentários -- sejam eles sobre esportes, música ou personalidades, e apostar no lado escuro da indústria do entretenimento tem sido uma jogada de mestre.

No último dia 14, o YouTube lançou o documentário A verdadeira história de Paris Hilton, já assistido mais de 8 milhões de vezes. Quem viveu a era MTV-anos-2000 recheada de reality shows, automaticamente lembra da patricinha herdeira milionária da família Hilton, dona de hotéis ao redor do mundo. Em Simple Life, considerado um dos primeiros realities de celebridades da história, Paris Hilton e sua melhor amiga Nicole Richie (sim, filha de Lionel Richie) saíam de seus berços de ouro para explorar a vida comum da classe C norte-americana. Pois bem. Essa mesma Paris, hoje com 40 anos de idade, escancara verdades e traumas em 105 minutos de um surpreendente documentário. 

A Verdadeira História de Paris Hilton acompanha a trajetória da socialite desde a infância, revelando características pouco conhecidas ou até escondidas de protagonista e a primeira delas já é digna dos levantares de sobrancelhas: aquela voz aguda e infantilizada tão característica de Paris é apenas um elemento criado por ela. Descrita como uma garota que detestava “coisas de menina” em sua infância e uma pessoa intelectual, apoiada nesta persona fútil, Paris tornou-se um das mais bem-sucedidas mulheres de seu tempo, dona de 17 linhas multimilionárias de produtos como perfumes, cosméticos e acessórios.

Podemos pensar em Hilton como a primeira celebridade famosa por ser… famosa. Uma digital influencer antes de existir a parte “digital” como temos hoje em dia e quem ensinou Kim Kardashian a como se tornar uma celebridade. Alguém, inclusive, que enxerga o lado problemático das redes sociais e que se sente responsável -- para o bem ou para o mal -- pela geração dos likes. A primeira metade do documentário é focada na agitada vida como empresária, reflexões sobre a infância e a destrutiva indústria dos paparazzi e programas de fofoca. Um dos casos mais icônicos envolvendo Paris, o vazamento de um vídeo íntimo com seu então namorado, é tratado no documentário e escancara a forma doentia como o tópico foi tratado na época. Paris, que tinha apenas 18 anos na época das filmagens, teve sua privacidade violada inúmeras vezes ao ser retratada na mídia como culpada e responsável pelo que aconteceu. 

Ao longo de todo documentário, vemos uma mulher solitária, que sofre de insônia grave, relacionamentos problemáticos e dificuldades em confiar nas pessoas. Tudo isso tem um motivo, um trauma. No terceiro ato, o filme dá uma guinada para uma causa pouco explorada a qual, infelizmente, Paris Hilton e muitos outros adolescentes foram e são vítimas: reformatórios juvenis. Paris cresceu num lar extremamente rígido, onde os pais a proibiram de namorar, ir para festas e até usar maquiagem. No começo da adolescência, ela passou a se rebelar e fugia de casa constantemente. Durante alguns anos da sua vida, os pais a enviaram para acampamentos e escolas para jovens “problemáticos”, por onde passou por abusos físicos e mentais. 

Ainda que de vez em quando aposte numa empatia forçada do público para com alguns típicos “white people problems”, A Verdadeira História de Paris Hilton mostra-se um produto íntimo sobre saúde mental, laços familiares, indústria do entretenimento e um dos muitos papéis impostos para uma mulher (ainda que branca, rica e extremamente privilegiada) na sociedade. 

*publicado originalmente na edição impressa de 23 de setembro de 2020.


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