Eu não conheci o Dr. Antônio da Gama e Mello, que residiu num dos sobrados mais antigamente solicitados e cultuados desta cidade, exatamente onde restam hoje, descaindo entre escombros e urtigas, na General Osório, a parede de frente com plaquinha de inscrições do seu valor histórico e fazendo menção ao nome de Virginius da Gama e Mello.
Não era um prédio que chamasse a atenção por lembrar a aristocracia rural dos seus melhores dias (século XIX) largado o tripé engenho-casa-e capela para o veraneio em Ponta de Matos, que era o luxo dos fins de semana, em sobrado cheio de ornatos da cidadetão bem estudado e melhor descrito por Juarez da Gama Batista, nascido nas encostas e também um ancestral dos Gama.
Só anos depois, atraído pela literatura urbana desta cidade, pelo Coriolano de “O Tambiá da minha Infância”, do livro já citado de Juarez, da linguagem de crônica de Celso Mariz, fui aderindo ao “ar sutil” da cidade, de sua gente, de seu casario provincial de cadeiras na calçada e, mais que tudo, da boa convivência entre as classes sociais. Os clubes, o Astrea,o Cabo Branco, não eram exclusivos da classe alta, certamente em decorrência da fama secular da “cidade dos funcionários”. Via-se isto, sem recorrer às estatísticas, pelo ânimo geral nos dias de pagamento.
Não cabe mais a pergunta ou a dúvida se a Paraíba mudou. Claro que mudou, como todo este paisão das maiores exportações mundiais de alimentos, ainda que muita criança, aos milhões, suscite a lição de André Gide: “Não há país rico com crianças quevão para a cama com fome”.
Voltemos ao sobrado lembrado pelas ruínas.
Por que isto agora, se o tema do desprezo com as referências da nossa memória urbana é coisa velha e batida?Pela pergunta que me fiz, nesta semana, ao me ver de olhar novamente voltado para aquela parede arruinada.Outros sobrados na Duque de Caxias, de arquitetura até mais representativa de sua época, estão caindo escorados, ameaçando o trânsito da calçada.
Afinal, o que tem um mestiço, caboclo das matas brejeiras como eu, com a história dos Gama e Mello, de linhagem aristocrática, falando latim, ocupando todos os poderes do Estado e, no caso de Gama e Melo, agradecendo ou se dispensando de ocupar o Ministério da Justiça no regime republicano nascente? E não vejo outra razão, além da confissão de modéstia para um cargo que ele não se sentia à altura. Tinha altura, sim. Floriano pôde avaliar quando aqui serviu, de cadeira na calçada a trocar ideias. Tinha altura para levar sua provínciadiscriminada pelas irmãs do centro-sul, a concorrer com a primazia dos estados na condução da maioria pobre deste país. Era jurista, professor do Liceu com lições de justiça e dignidade quando passou pelo governo no regime monárquico. Desentendera-se com um colega de magistério, diretor do Liceu, que, mal termina a posse de Gama e Mello no governo,corre ao Palácio com o pedido de exoneração: “Volte e continue meritoriamente em seu lugar, independente de nossas divergências”. As palavras exatas estão nas “Reminiscências” de Francisco Coutinho, que testemunhou o gesto.
Foi lendo este povo, que é ler a crônica de F. Coutinho de Lima e Moura, Celso Mariz, Coriolano, Juarez, memórias vivas da cidade e dos seus homens, que me veio a pergunta ao cruzar o paredão velho enramado de heras: “Será que a casa pode lembrar o homem?”.
*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 31 de maio de 2026.