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Dominique – nique – nique

publicado: 04/05/2026 09h09, última modificação: 04/05/2026 09h09

por Gonzaga Rodrigues*

Com a velhice, passei a sonhar em demasia, não daqueles sonhos passageiros que largamos na cama ou na rede tão logo acordemos,mas, nesse declínio de dias ansiosamentecontados que os pesadelos da vida ativa parecem transferir-se para o nossotravesseiro. E haja situações absurdas. Uma torre de igreja que desabou com a obra em construção, num pôr de sol de minha infância em Alagoa Nova, ainda hoje acontece nas noites do menino velho.

Mas há momentos de exceção benfazeja que,de muito longe, vêm nos restituir a vida que havíamos deixado, no meu caso particular,à entrada do hospital sem muita esperança de retomá-la.

Sim, havíamos deixado lá fora umaatividade que, em doze anos de vivência entre os pessoenses ede estágio em estágio vinha sendo ansiosamente construída. Já tínhamos um nome, uma referência quando o pneumologista Marcos Pedro da Silva, companheiro antigo da Casa do Estudante, vêdecretada numa radiografia levantada de seu birô, entre nossos olhos, a alternativa do internamento.

“Você já tem filhos, uma mulher, e descuidado como sempre foi, tem de ser internado no Clementino Fraga. Eu cuido disso”.

E eis-me vestido de mescla azul, número 32, pavilhão 3, tendo de fazer novos amigos e usar máscara enquanto não me livrar do bacilo.

Oitenta leitos, um próximo do outro, em oitenta mundosdiferentes.A noite perdera a fala, era proibido conversar,cada um a se contentar com suas lembranças e apreensões. Perto de mim, um magro que era o comprimento da cama, os dois braços atrás da nuca e a imaginação de olhos no teto. Virei-me para o outro lado, a atenção dispersa no vazio mais nebuloso de todas as vigílias, mas tentando evitar a autocomiseração.

Vem o golpe de 64 e puxa a escada que já havia me levado a serviço da Universidade. Era fim de março ou 1º de abril, eu com quatro meses de sanatório, mas ainda não liberado para voltar à luta, a novas oportunidades de trabalho. Restara-me o fixo do jornal oficial, um terço dos meus ganhos. A mulher, nas visitas do domingo, tentava me tranquilizar: “Os meninos estão bem (já eram três) e o que pude guardar até agora dá para o gasto”. Persignava-se.

É neste cenário que os democratas de hoje hasteiam a mesma bandeira dos democratas de 64, numa madrugada invernosa deste fim de abril, que me vejo acordar de um sonho aberto naquele 1964 da vida real com a música mais que alegre entoada por uma freira dominicana da Bélgica, a Irmã Sorriso, para todos os infelizes do mundo. Não fala nisto, a isto não se propõe, mas é o que consegue, numa voz bem clara, emanada do céu, das nuvens, sei lá de onde: Dominique –nique-nique, a povoar todas as solidões do mundo, particularmente a daquela manhã de sol a me pertencer com exclusividade para receber a notícia de alta. 

“Vista-se, seu Gonzaga, sua roupa saiu do armário, assinaram sua alta” – veio avisar a auxiliar de enfermagem, Mercês, um sorriso discreto com a máscara a ocultar a expressão dos lábios. Masno sonho de agora, só a música da Irmã Sorriso ressurge viva, a mesma mensageira superior ao tempo. 

*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 03 de maio de 2026.