O jornal O Norte, lembrança primeira do meu livro Café Alvear, morreu sem merecer um túmulo, uma inscrição destinada à memória da cidade. Circulou de 7 de maio de 1908 a 2008, sobrevivendo alguns meses ao centenário.
Recordo genuflexo o empenho de Goreth Zenaide, uma das suas últimas fortalezas, para tentar reanimar o que restava do jornal na comemoração do seu centenário. Trabalho perdido.
Meses depois, eu e Martinho Moreira Franco juntos, recostados de pé ao gradil do jornal, deixamos de entrar ao ver a chegada atemorizante do comando “associado”, chefiado pelo superintendente de Brasília — um estranho aos valores da Paraíba — para decretar o fechamento do mais duradouro jornal particular da Paraíba, nascido das mãos de Órris e Oscar Soares, personagens históricos da nossa cultura, e renovado em 1949 como jornal da campanha a governador de José Américo.
Quatro anos depois, com o aval de José Américo, o jornal é incorporado por Assis Chateaubriand à rede Associada, a partir de quando arregimenta a seleção do meu testemunho e aprendizado com Geraldo Sobral, José Souto, Evandro Nóbrega, Juarez Felix, Carlos Romero, Hélio Zenaide seguidos, anos depois, de Nathanael Alves, João Manuel de Carvalho, Luiz Augusto Crispim, Luiz Martinho Moreira Franco, todos de vocações acesas para um jornalismo que não invejava o praticado pela grande imprensa.
Fizemos escola antes da Universidade nos ensinar, o corpo docente arrecadado dentre os nossos valores. Foi a fase decorrida ainda na Duque de Caxias, assimilada na investigação atenta e invejosa dos padrões que o Jornal do Brasil e a Folha de S. Paulo ofereciam de graça acrescentados dos seus manuais e Cadernos de Jornalismo. E a dois passos de nós, tendo como laboratório, fonte da primeira informação, o Ponto de Cem Réis. Depois vem a fase empresarial numa sede construída sob medida para abrigar o jornal vitorioso. E é nesse passo, que vem a óbito, após vinte anos de concorrência e comando de Marcone Goes, o embate coletivo com os melhores jornais da terra.
Os estranhos passaram por nós, que mais aderimos e nos imprensamos à parede do terraço à sua passagem, e não nos cumprimentaram. Não viram ninguém e muito menos o tesouro que iam fechar entregue ao abandono. E dali nos desligamos como se isto fosse possível. Marcondes Brito, Frutuoso e Genesinho de Sousa também teriam sofrido a mesma sensação.
A rua é larga, a Pedro II, e sobra acostamento para uma paradinha, sempre que passo. Decorridos quase vinte anos, não consigo dissociar essa lembrança de minha legítima família profissional, cívica, solo firme dos meus passos e das minhas convicções, obrigado, quotidianamente, a participar do mundo e do meu núcleo de sustentação. Operários e redatores, eles todos sugerindo uma memória além da crônica que se foi e que se vai com o dia.
Certa vez Rubens Nóbrega até que me animou. Sabendo de minha frustração em busca de um gênero em que a arte é que avigora o tempo, em meio à carona, tocou-me no ombro: “Dá uma vestimenta de ficção e salva teu testemunho.” Ele acabara de fechar e editar o que me aconselhava pendurando num fio bem urdido de ficção o que a crônica não consegue. Adalberto Barreto já havia me riscado as esporas com a mesma advertência: “Faz de João Pedro o teu Spartaco!”
É como me vem, nestes dias nublados, a lembrança do grande Martinho, que há cinco anos nos deixou faltando dois meses para os 75 anos.
*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 12 de abril de 2026.