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O aviso dourado

publicado: 05/01/2026 09h13, última modificação: 05/01/2026 09h13

por Gonzaga Rodrigues*

Não vi ou foi muito escasso o aviso dourado dos paus-d’arco neste Natal. Também não tenho saído ou não tenha o que ver nos lugares que me confundiam com eles. E os lugares não valem apenas por si ou pelo postal que, antes da internet, serviam ao turismo. Valem, isto sim, pelo que estão impregnados de nós, pelas afinidades com as nossas vidas. O Ponto de Cem Réis, morada espiritual de  sucessivas gerações, continua frequentado, mas quem vou encontrar? Todos se foram. E era nele, ouvindo companheiros que encarnavam o espírito de minha geração, onde me sentia animado a exercitar meu arremedo de crônica. Até então era ela incerta em meu ânimo fixado no batente de A União e de O Norte. Minha ambição era a de repórter e redator com aquele automatismo redacional do grande Dulcído Moreira, correspondente de O Estado de S. Paulo, o texto escrito em qualquer lugar, na  redação ou na mesa do Café Alvear, e quase simultâneo com o fato. Crispim e Nonato chegaram a isso. Eu tinha que me esconder no Aurélio à procura da palavra própria.

Foi ali, naquele largo tantas vezes deformado, que aprendi a gostar da cidade. E a valorizar dons e comportamentos que vão do espírito dos seus filhos ao ouro dos seus paus-d’arco.

Normalmente, quando o ano vem bom de inverno, aberto com todas as flores e frutas do verão, o pau-d’arco solta o aviso dourado a começar da Lagoa. A manchete mais à vista abre--se logo à frente do Liceu. Nenhum olhar fica indiferente ao chamado desse arauto das entranhas da terra e dos mistérios das nuvens. Quando ele aparece, perpassa em nosso íntimo um cheiro de roupa nova que parece depender desse toque externo para acordar e ressurgir. Pena que demore pouco.

Que foi que houve este ano? Não consta que o PIB aumentou? Que o desemprego arrefeceu? Que o combate à fome retomou sua prioridade?

A natureza é superior e sempre estará a  resistir às agressões dos que tentam mudar o seu ciclo ou as suas leis.

Fui vizinho, aqui no Expedicionários, do dr. Gabriel Farias, um dos que elevaram o nome da Paraíba agrícola numa fase boa de governo. Sua granja, um meio hectare na avenida que dá nome ao bairro, era um mostruário das possibilidades do nosso clima no trato da fruticultura. Cultivava de laranja-pera a jabuticaba, pinha, estas duas próprias do semiárido. A laranja-pera ou pera do Rio, de suco delicioso, era suculenta, a casca fina. Tivemos campos de fruticultura em Espírito Santo e laranjais na vizinha Santa Rita, que, juntos à Fazenda São Rafael, hoje campus da universidade, abasteciam o nosso Mercado Central. É possível que os avisos florais do Natal pouco tenham a ver com isso, mas duvido que se encontre em nossa Ceasa de hoje uma laranja-pera que o bagaço não usurpe toda a metade. É a fruta fora do seu ciclo natural, forçada quimicamente a cobrir todos os meses do ano.

A manga está entre as frutas mais saborosas da nossa região, rica e frondosa, sem escolher terreno rural ou urbano, a espada, a manga-rosa e a rosarí as mais deliciosas. Com o sabor natural, a safra ainda está para vir. A floração que veio a partir de outubro foi radicalmente levada por uma chuva quente que, em seu lugar, deixou-nos a gripe. Acontece, mas não é anos seguidos como vem ocorrendo. Fabricam-se frutas em vez de agricultá-las.

*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 04 de janeiro de 2026.