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Praças do pensamento ou da esperança

publicado: 02/02/2026 10h06, última modificação: 02/02/2026 10h06

por Gonzaga Rodrigues*

O ano de 1957 nunca deixou de ser um corrente ano na minha lembrança, imune ao apagão dos demais. Há anos assim, uns marcados por cicatrizes, outros como um segundo aniversário.

Esse de 57 me vem à memória como o ano em que pude acertar o passo, assumir uma profissão que foi e tem sido um alicerce material e cultural, um começo e um fim de vida. Os seis que eu havia passado em Campina, da adolescência às vésperas da maturidade, foram de vocação apagada, entre a vadiagem e a biblioteca pública, por sorte minha a dois passos da sinuca, dos cafés, do parlatório central da cidade. Para o comércio, ramo no qual um primo prosperava e se impunha para a maioria dos meus companheiros do ginásio — os Mota, os Villarim, os Agra e os Rached — como opção de reserva, nele eu me sentia sem jeito. Nunca soube vender nem comprar. Nunca regateei. Dele, quase a vida toda até estes últimos vinte anos, sempre fui devedor, liberto, afinal, depois que passei à gerência ainda que generosa dos filhos.

  Foi naquele 1957, intimado por José Barbosa de Souza Lima, antigo colega de Casa do Estudante e de banca de revisão, levado com mérito à direção do jornal, que forcei a natureza e retornei ao batente. Fora demitido de O Norte por reagir, no ato, a um esbregue do dr. Calmon, superintendente- -geral dos Associados. E vem Barbosa, vendo-me vender revista na calçada do cinema, e me reencaminha ao jornal. Assumi-me e, três anos depois, descobri que havia Natal, luzes e sinos gerais, levantando o brinde de homem novo ao ser escolhido, por aclamação da redação (leia-se Dorgival, Barbosa, Malaquias Batista, José Ramos, Wellington Aguiar), novo subsecretário do jornal, a promoção mais importante de toda a minha vida. Depois vem Octacílio de Queiroz e me faz secretário, o executivo de toda a redação.  

E por que esse episódio tão particular vem à tona num jornal de escritores e do trato em grande estilo dos interesses locais e mundiais mais relevantes? Simplesmente por causa de uma ampla fotografia de primeira página com um moço que conheci nos seus primeiros passos com a administração planejada, hoje governador reeleito, com a multidão em redor do mesmo prédio que ele restaura, renova, o mesmo escolhido para a posse histórica de um outro João, o de Castro Pinto, no trono estadual improvisado em 1913. O palácio dos Jesuítas, que olhava do alto da colina com ânsias de ir e de ver além do rio, devia estar em mais uma reforma. E o João de hoje a trazer de volta um dos momentos culturais e políticos marcantes como exemplo da Paraíba à democracia do país.

E eu, onde estava? Sem emprego, arrimo de família, estava numa banca de revista ao lado do Cine Brasil, sem perder a fé e a esperança bafejadas pela floresta de oitizeiros a abrejeirar um palácio de semblante amigo a quem primeiro me entreguei quando desembarquei na praça com maleta, rede e um caderno de sonetos de pé quebrado. É para lá que sempre tenho recorrido, desde que aqui cheguei, naquelas horas de desproteção e nas de desânimo de hoje. Desânimo não mais comigo, mas com o mundo, que, quanto mais avança em ciência, mais se desumaniza em guerras sofisticadas e mais cruéis, e mais afunda em desigualdade social.

*Coluna  publicada originalmente na edição impressa do dia 1º de fevereiro de 2026.