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Recordar é bem melhor que viver

publicado: 23/06/2026 08h38, última modificação: 25/06/2026 10h01

por Gonzaga Rodrigues*

Eu tinha um primo em Campina Grande chamado João Ferreira Viana. Chegara aos meus 14 anos e me entendi livre para pular o muro do internato, correr seis léguas a pé a Alagoa Nova e iludir a boa fé de meus pais com a alegação de mal passadio no internato.

Ora, eu nunca antes me achara mais livre nem mais bem servido. Queria mesmo era debandar, livrar-me do rigor do salão de estudos, no aprendizado, tal como fugi por toda a vida da obrigação curricular dos liceus da vida e de tudo o mais que viesse exigir esforço de vontade e de aprendizado.

 A viagem a pé, a tarde inteira entrando pela noite, sem uma carona, deve ter abrandado a reação de meu pai. Daí, fui levado por ele e acolhido familiarmente numa casa com todos os seus cômodos já ajustados para quatro filhas, o chefe da família e D. Rosinha, que vivia de cama, além do provedor da casa, João Viana, solteirão. Escravo do trabalho, ele levantava com o sol, apressava o café e as grandes pernadas para o seu negócio. E ofereci-me a segui-lo na marcha batida, todo dia, desde o Quartel do 40 BC, no Alto do Seixo, até chegar à Floriano, dobrar à direita e nos enfiarmos balcão adentro na mercearia de Sizino Uchoa, atrás do Grande Hotel. Era não mais que um quarto sem forro iluminado por um feixe de sol que descia da  coberta pela telha de vidro a avultar sacos e mais sacos de biscoitos que o primo ia comprar a granel na Pilar do Recife para a revenda a varejo nos bairros da cidade. Eram biscoitos com pequenas falhas do processo industrial mas sem quebra de qualidade, que eu fisgava de cada embrulho com aquele mesmo morno adocicado de tão longa duração.  

E à luz dessa memória romantizada por Proust, o foco remoto daquele telhado vem me situar agora, oitenta anos depois, de carrocinha a mão a concorrer com o Café São Braz do velho José Carlos da Silva, o pioneiro da Simeão Leal, na entrega das nossas mercancias.

Advirta-se que, naquele tempo, 80 ou mais por cento do café consumido na região eram torrados e pilados em casa, a demanda total do café processado e de embalagem rotulada vindo a ser atingida a partir da geração de executivos do José Carlos da Silva Júnior, herdeiro do nome, da fibra e das bases sólidas de uma indústria de aspirações à frente do seu tempo. 

Foi ele o industrial dos novos tempos, de visão aberta para o mercado que as comunicações e os primeiros incentivos começavam a expandir. 

Jovens, ele uns seis anos mais velho, eu o conhecia de longe, ele já rapaz de buços, bem vestido, filho de um industrial de liderança  que vezes sem conta era visto a conversar de mangas de camisa à porta da fábrica, conversa em que entravam os seus iguais e também os comuns. Relacionava-me mais de perto com outros filhos de ricos, colegas de ginásio, como Luiz Mota, Aragão, Vilarim e até árabes e libaneses que o comércio da cidade atraíra em sua pujança algodoeira. Quando vim me relacionar de fato com o José Carlos Junior, ele já formava entre as novas lideranças unidas contra o conservadorismo da Federação das Indústrias. E pela primeira vez nos sentamos à mesma mesa com Humberto Almeida para os primeiros passos do Jornal da Paraíba, ganho que não pude conciliar na assessoria da Sinep e da editora A União. Com ele vim levar a melhor aqui, prestigiando-me em meus lançamentos, recebendo-me só ou ao lado de José Neiva Freire, seu amigo, sendo sempre ele quem mais conversava ou nos informava.

Recordar, não há dúvida, é melhor que viver.

*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 21 de junho de 2026.