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Seleiros de ontem e de hoje

publicado: 26/01/2026 08h54, última modificação: 26/01/2026 08h54

por Gonzaga Rodrigues*

Frequentemente, Hilton Gouvêa vai buscar longe no tempo o tema de suas reportagens. Um longe que às vezes está por perto, outras perdido na garrancheira do semi-árido, por trás das pedras que roubam a cena da paisagem ou no limbo esquecido do tempo.

Com maestria garantiu seu espaço no patrimônio de A União para vir à tona atividades fora de tempo e de espaço como o trabalho de um seleiro de Arara, conterrâneo de Nathanael, responsável pela vestimenta e arreios de toda a montaria do Curimataú, do Brejo e de alguns fantasmas das estradas sertanejas.

Tentando me livrar de recortes velhos que não cabem nas gavetas, dou com o assunto estampado em toda a primeira página de um caderno do jornal. E como hoje só me restam confortáveis as andanças nas calçadas da memória, já que as reais não me ajudam, deixei-me ficar com meu amigo e confrade Hilton, que foi descobrir um seleiro exímio em Arara, homem novo ainda a falar das suas artes, das suas vaidades, pois todo o seu trabalho é artesanal, feito à base da quicé e da suvela. Tudo costurado e montado a mão. Ofício que herdou do pai, também seleiro.

E a pergunta, feita anos antes a Deoclécio Moura, que para ser fazendeiro em Taperoá, teve de encomendar sela em Serrinha, Pernambuco, voltou a insistir: pra quem essas selas, essas bridas, esses arreios num tempo sem tropeiros, sem mais cavaleiros? Já contei que saí pela BR até Patos, derivando para o Piancó, estrada e mais estrada sem um cavalo selado nem como aparição.

Onde estão os vaqueiros, perguntei a meu saudoso amigo Franciraldo Loureiro, que me dava carona e hospedagem em seus pagos do Piancó. O que saía das veredas ou vinha dos descampados empoeirados eram motoqueiros velozes, o canudo de poeira atrás com afoiteza maior que a dos nossos temerários acrobatas do tráfego urbano.

Onde estão os vaqueiros, Franciraldo?

Estão na tua alma, nas histórias que ouviste – respondeu-me.

De fato, os últimos cavalos selados que cruzaram há pouco tempo em meu caminho foram uns dois ou três que avistei no lugar errado, nos aceiros da feira de Oitizeiro e, um outro, especial, donairoso, montado nas areias do Cabo Branco, ainda jovem advogado, o tranquilo e cordialíssimo desembargador José Ricardo Porto.

E o ultimo grande seleiro que a memória guardou para todo o sempre, o mestre José Amaro, na estante aqui ao lado. Um seleiro triste, magoado, curtindo um silencioso e trágico desespero, bem diferente do seleiro Misael, confiante e feliz na sua arte e sem muitas queixas do seu mundo.

Não tive a mesma sorte no meu ramo, no ramo gráfico, no qual realmente sobressaí até a implantação do computador em todas as etapas de minha participação nas oficinas gráficas. Passado para trás, não pelos novos digitadores e editores, mas pela minha natural inabilidade às artes mecânicas e, em seguida, informáticas, fui fazer companhia, aposentado, aos meus antigos parceiros da linotipo, da paginação, da impressão nos bancos e cafés do Ponto de Cem Réis, com seus passos e espaços da memória.   

*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 25 de janeiro de 2026.