Não sei das outras inumeráveis esquinas, mas ao primeiro flagrante dessa invasão exposta dos Estados Unidos ao país irmão da nossa outra América acode-me uma Venezuela derreada ao pé do muro da Igreja Universal, aqui na Epitácio Pessoa, onde passo todo dia coçando os bolsos para deitar alguma moeda na cuia de uma criança de mão estirada, a outra a proteger os olhinhos apertados de índia do nosso sol inclemente.
Há uns sete anos começaram a aparecer entre nós, sempre atrás de uma tampa de isopor, andrajosos, tristes, o isopor como indicação de sua pátria: “Somos venezolanos”. Os rostos não negavam.
Nunca estivera em meus cálculos essa proximidade com a Venezuela. Salvo quando atravessava a vizinha Abreu e Lima, a história desse general pernambucano saltando do livro de Vamireh Chacon e esticando a estrada além do meu país, nas lutas de libertação capitaneadas por Simon Bolivar. Sempre a vi de longe, mesmo embalada no bolivarismo do tempo de crença e da aventura histórica do general Abreu e Lima. Mas não tão longe nestes tempos de riqueza global a contrastar com a miséria transbordada suja, esfarrapada para as nossas calçadas.
Lembro-me bem que indo ao Ponto de Cem Réis, no dia seguinte, não veio dar noutra. Não a mesma mulher acostada ao muro da Igreja, mas uma mais nova com uma criança de peito e outra, mal andando, sentadinha num batente de loja do Paraíba Hotel.
É de perguntar: em condições tão precárias, lombando crianças, como conseguiram atravessar um continente de cordilheiras e fronteiras sem fim para se arrimarem sob a mesma pobreza das nossas velhas marquises?
E caí num tempo em que as nossas calçadas eram cheias dos migrantes (retirantes) de nossa própria fome, até então disfarçada na seca desde o tempo do império.
Para onde foram eles? O Brasil melhorou? Sem dúvida melhorou, apesar da perseguição renitente das estatísticas às faixas de baixa renda.
De qualquer maneira, nestes últimos 15 anos, a nossa miséria ficou menos exposta, mesmo nos anos de seca, com o êxodo atenuado pelo Bolsa Família e outros programas sociais do desagrado dos patrões. As nossas calçadas e marquises já não refugiam os antigos retirantes, os que sobravam da emergência, ainda que tenham abandonado o campo, a vocação de origem, em busca da periferia urbana, alguns como os flanelinhas do troco que sobrou ao feirante dos supermercados.
Há algo errado, sem dúvida, entre os venezuelanos. A riqueza de minerais estratégicos, sobretudo de petróleo, só se presta para acentuar criminosa e injustamente a profunda desigualdade social. Mais de 25% de uma população de 27 milhões se obrigam a cair fora do país. Mas não terá sido esse triste problema, certamente, o que levou os Estados Unidos, tal como fizeram no Iraque, à invasão armada para a captura brutal, sangrenta de um chefe de estado. Se ditador ou não, é problema dos venezuelanos. Desde quando o Pentágono defende a democracia fora do seu país? A história tem mostrado o contrário.
*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 11 de janeiro de 2026.