Espionando por uma frincha sem mais vidraça da porta central, portão e janelas laterais fechadas, não pude deixar de sentir o bolor do nosso desprezo ou do desprezo da classe à sede da sua antiga Associação Paraibana de Imprensa, a histórica API.
Tenho parte com ela como tive com os dias de fausto ou de lances crepitantes dos seus noventa e três anos no próximo setembro. Como tenho agora, indiretamente, com esse bolor silencioso.Há dezenas de anos que não pago a mensalidade, falha que muito antes me deixava revoltado na condição de tesoureiro e noutras vezes presidente. Também não me cobram, mesmo agora que o resgate entra sutil na conta bancária do devedor.
Na fase de politização mais ardente, as ideias fervendo com a onda nacionalista que despertou o país dos anos 1950 até 1964,nessa fasepassou a faltar cadeira e outros equipamentos na medida em que cresceu e propagou-se o prestígio de sua tribuna. Influentes vozes deste país e de fora vieram juntar-se às lideranças locais no pequeno auditório nacional da nossa Visconde de Pelotas. O público se apertava sem incômodo, muitas vezes usurpando da mesa a direção dos debates. Isto repercutiu muito além dos limites da classe, atraindo colaboradores independente da classe ou categoria a que pertencessem, a partir da campanha “traga a sua cadeira e venha sentar conosco”. Foram Leopoldo Pinheiro, Balduíno Lélis, Antônio Tavares de Carvalho, Romero Peixoto, Luciano Wanderley, Marcos Crispim, Rui Bezerra, todos acorrendo a nosso chamado. Ainda assim, com um auditório limitado a menos de 100 cadeiras, a entidade tornou-se pequena para o debate que irradiava
Veio o abuso armado de 1964 que teve como primeiro alvo de seu furor arbitrário a sede da API com a prisão de alguns visionários, Adalberto Barreto à frente.
E assim, mesclado sob o pulso de uma geração pressionada pela censura, pelas restrições do regime ao exercício da profissão, pela necessidade imperiosa de um curso regularde jornalismo, o debate e a pauta de reivindicações concentrou-se nos problemas da classe. Foi da API que nos mobilizamos para a conquista do reconhecimento universitário, numa escapatória do arbítrio levada a sério por um lutador de espírito intimorato(Linaldo Cavalcanti) impondo-se acima do autoritarismo. Tivemos com José Ferreira Ramos no Planejamento da UFPB, ele que foi um renovador da nossa imprensa, sócio da API, a pronta elaboração da proposta de criação do curso de Jornalismo.
Velha API dos meus antigos homizios! Explorando as tuas horas de silêncio (não desse silênciodissociativo de hoje) quantas vezes, desalentado, fui buscar emTchaikovski, naquela abertura triunfal de 1812, a esperança perdida, frustrada na busca do primeiro emprego ou de afirmação da personalidade. Para isto meu conterrâneo de Alagoa Nova, dr. Carlos Romero, num cantinho da sala, doara pequena discoteca a seu gosto, o que não era pouco.
Eraesta a API que achei de esticar as rugas dos meus olhos cansados para ver e sentir o silêncio pesado de hoje e, ao mesmo tempo, a saudade iluminada de ontem.
Que fazer então? Mesmo reconhecendo o esforço do jovem presidente Marcos Wéric, foram-se, não se sabe para onde e definitivamente,o espírito associativo, as associações, os clubes sociais. Quem sabe se, disso tudo, a API não termine em museu?
*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 24 de maio de 2026.