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Escanteados na hora do almoço

publicado: 20/05/2026 09h08, última modificação: 20/05/2026 09h08
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O gênio do crime: filme nacional estreou em horários bizarros, entre 12h e 13h | Foto: Divulgação/Paris Filmes

por Renato Félix*

Uma das minhas funções aqui em A União é a edição da agenda cultural – a sessão “Em cartaz”, que você lê diariamente na página 12. Então, toda semana eu atualizo os filmes que entram nos cinemas da Paraíba e seus horários. E no ano passado comecei a notar uma situação peculiar.

Não me recordo de quantas vezes aconteceu, mas aqui vai um exemplo real: a comédia brasileira A sogra perfeita 2, após algumas semanas em cartaz, apareceu a partir do dia 9 de outubro em quatro salas do Cinépolis do Manaíra Shopping e outras quatro no Cinépolis do Mangabeira Shopping.

Quatro salas para um filme que já contava um mês em cartaz? Assim, de repente?

Aí, os horários. No Manaíra Shopping, o filme estava em cartaz em uma sala às 13h, em outra às 13h30, na terceira às 13h45 e na quarta às 14h. No Mangabeira, os horários (um pra cada sala) foram 12h, 12h10, 12h30 e 22h.

Que demanda de público era essa para esse filme específico em oito horários entre 12h e 14h? Tinha tanta gente assim querendo ver este filme na hora do almoço que os horários precisavam ser quase simultâneos?

Esse fenômeno aconteceu algumas vezes com outros filmes, nesses mesmos cinemas. Em 20 de novembro, foi a vez da animação nacional Eu e meu avô nihonjin. Três salas no Manaíra Shopping: uma com sessão às 13h e duas com sessão às 13h15. Outras três salas no Mangabeira Shopping: uma às 12h, outras às 12h10 e uma terceira às 12h05 e 13h50.

Em 26 de fevereiro, aconteceu de novo, agora com a “re-estreia” do infantil O diário de Pilar na Amazônia. Por que este filme voltou aos cinemas com quatro salas no Manaíra Shopping e mais duas no Mangabeira?

A resposta: em uma das vezes, na planilha enviada pela Cinépolis, vinha uma mensagem interessante (certamente esquecida ali) ao lado das sessões do filme que exigia tantas sessões ao mesmo tempo:

“Cota de tela: sessão entre 12h/13h apenas para cumprimento de cota de tela, pode retirar os trailers”.

Ou seja: essa sessões de filmes brasileiros em horários simultâneos para ninguém é uma maneira de burlar a cota de tela, que exige uma porcentagem de filmes brasileiros exibidos pelos cinemas. Mas as redes têm liberdade para escolher qual filme e em que horários.

É nessa brecha que a Cinépolis se aproveita para despejar alguns filmes simultaneamente em várias salas, em horários esdrúxulos, sem qualquer intenção de que sejam vistos por alguém.

Muito pior é o caso da Cinemark, exposto pela Folha de S. Paulo este mês. Os cinemas da rede em todo o país, somados, vinha exibindo desde outubro a animação Zuzubalândia: o filme, de 2024, mais de cem vezes por dia, sempre entre 11h e 14h45. A reportagem do jornal visitou um dos complexos e pegou as várias sessões sem uma pessoa sequer assistindo.

É muito triste ver pessoas comemorando essa trapaça da rede de cinemas. Repetindo coisas pouco inteligentes como a de que a cota de tela “quer obrigar as pessoas a assistirem o que elas não querem”, quando é exatamente o contrário: aumentar a oferta para que, quem não queira ver o blockbuster da vez, tenha opção também.

Nas últimas semanas, o “cinema do almoço” da Cinépolis ganhou uma novidade. Filmes brasileiros inéditos começaram a ser lançados nesse horário insalubre. Primeiro, o documentário Zico, o samurai de Quintino, exibido em uma mísera sessão diária às 13h.

Esta semana, é a vez da aventura infantil O gênio do crime, que tem duas salas no Cinépolis Manaíra: numa, o filme está às 12h; na outra, às 12h45. No Cinépolis Mangabeira, duas salas: numa, às 12h30; na outra, às 13h.

Agora, me diz: que chance esse filme tem na bilheteria sendo colocado nesse horário insalubre?

*Coluna publicada originalmente na edição impressa do dia 20 de maio de 2026.